201509.24
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Empresas incentivam trabalho voluntário para engajar equipes.

Mesmo em um ano turbulento, em que as pessoas estão mais preocupadas com suas economias e com seus empregos, a participação de funcionários em programas de voluntariado tem aumentado. As ações são bem variadas. Algumas empresas apenas fazem a conexão entre as instituições e seus funcionários, enquanto outras desenvolvem programas próprios. Para as companhias, essa é mais uma forma de incentivar a integração de equipes e manter o engajamento em alta em um momento difícil.

O Carrefour, por exemplo, trabalha com mais de 95 instituições e registrou recorde no número de participantes neste ano. Atualmente, são cerca de 1.260 funcionários engajados em atividades de voluntariado, que têm direito a quatro horas por mês, dentro do horário de expediente, para realizar um trabalho. “As campanhas de mobilização favorecem a sensibilização de colaboradores, consumidores e comunidades para questões ligadas à ajuda humanitária e melhoria do bem-estar pessoal e coletivo”, diz o diretor de sustentabilidade, Paulo Pianez.

Na Eurofarma, 5% dos funcionários participam de ações dessa natureza. É o caso de Diego Gola, gerente de planejamento estratégico, que dá aulas de educação financeira para adolescentes do Instituto Eurofarma. “Sou voluntário há oito anos, sendo três pela Eurofarma. É uma oportunidade de sairmos da nossa zona de conforto e criar um momento de intercâmbio cultural único. Quando estamos ensinando algo, acabamos aprendendo em dobro.”

Na opinião de Neide Senconvici, gerente de responsabilidade social corporativa da Eurofarma, a integração entre profissionais de várias áreas e níveis hierárquicos nos mutirões contribui para um clima de camaradagem e cooperação.

Nessa mesma linha, a Heineken criou o movimento Heineken Cidadania. Trata-se de um grande evento no qual a empresa promove atendimentos básicos, acesso ao conhecimento e uma gama de serviços públicos gratuitos à população. Neste ano, 13.300 pessoas foram beneficiadas no estado de São Paulo com a contribuição de 100 voluntários.

“Como retorno, a companhia aumenta o engajamento com as populações locais, estreitando uma relação de cooperação também com instituições governamentais e do terceiro setor. Além disso, o colaborador se sente mais feliz, pois se identifica mais com uma empresa que se preocupa em ajudar o próximo”, diz Renata Zveibel, diretora de comunicação externa e sustentabilidade da Heineken Brasil. Recentemente, a estratégia de sustentabilidade da companhia foi revista para aumentar a relevância da participação dos voluntários nas comunidades onde a empresa possui fábrica.

Causar impacto positivo nas comunidades onde está presente também tem sido uma meta da seguradora AIG. Duas vezes por ano, seus 65 mil funcionários no mundo podem pedir liberação remunerada durante o horário de trabalho para participar de ações de voluntariado em instituições de sua preferência ou atividades promovidas pela seguradora. Em abril, a companhia convocou seus funcionários para pintar a área da piscina e o muro da frente da Casa do Zezinho, entidade que ajuda crianças e jovens em situação vulnerável nos bairros do Capão Redondo, Parque Santo Antonio e Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo. Novas atividades estão marcadas para os dias 10 e 17 de outubro.

Na farmacêutica Novo Nordisk, 11 projetos foram realizados e aprovados pelo Comitê de Responsabilidade Social, em 2014, com a colaboração de 70% dos funcionários, que contribuíram para impactar positivamente mais de 600 pessoas. Em 2015, a participação foi de 100% dos funcionários no “Take Action Day”. “Conseguimos perceber que muitos dos nossos funcionários passam a enxergar a realidade com outros olhos e a refletir mais sobre o que acontece fora do dia a dia de trabalho”, diz Fabiana Cymrot, diretora de recursos humanos da companhia no Brasil.

Para estimular a troca de experiências entre empresas que possuem programas voluntários estruturados, o Centro de Voluntariado de São Paulo criou, há seis anos, um grupo de estudos. Ele já contou com a participação de cerca de 700 empresas. “Mesmo que sejam organizações concorrentes ou do mesmo setor, aqui dentro estão todas voltadas para fazer o bem comum”, diz Silvia Louza Naccache, coordenadora do grupo. Entre outras atividades, o centro oferece cursos e palestras de como as empresas podem organizar seus programas de voluntariado. “Percebemos que o interesse tem crescido, mas ainda há muito por fazer”, complementa.

Cláudia Varella Sintoni, coordenadora da área de mobilização social da Fundação Itaú Social, concorda. Para ela, as empresas podem e devem pensar mais em como oferecer oportunidades reais de participação. “Doação de recursos materiais e financeiros são importantes, mas muitos programas acabam parando aí. As pessoas, no entanto, estão dispostas a fazer ainda mais”, ressalta.

Em uma pesquisa realizada pela Fundação no final do ano passado, constatou-se que 72% dos brasileiros nunca atuaram em ações voluntárias e que 58% se dizem dispostos a realizar atividades desse tipo nos próximos anos. “Temos um grande potencial de aumentar o número de pessoas que ajudam, efetivamente, a construir uma sociedade mais justa e melhor. Para isso, é preciso oferecer ações voluntárias estruturadas e, nesse sentido, os programas corporativos se tornam extremamente relevantes.” Atualmente, o banco Itaú trabalha com diversas organizações, como escolas públicas, abrigos, hospitais, creches e ONGs. Os próprios voluntários também podem inserir suas organizações na plataforma Rede de Ações Sociais Itaú, que tem mais de 800 ações cadastradas.

Foi pensando em como levar seu programa de voluntariado para um outro patamar que a Suzano Papel e Celulose se uniu à Fundação Iochpe. Desse modo, passou a integrar seus voluntários ao projeto Escola Formare Aprendiz, que há quatro anos oferece curso de operador de processo de produção para jovens entre 18 e 19 anos que moram próximos às suas unidades industriais.

O curso é ministrado por voluntários da companhia e já formou mais de 400 jovens, conseguindo inserir 73% deles no mercado de trabalho e retendo quase 100 deles na própria empresa. “Além de contribuirmos para um melhor ambiente, em que o espírito de liderança e trabalho em grupo são ressaltados, criamos um círculo virtuoso. Isso significa que os que foram ajudados também serão voluntários no futuro e ajudarão outros”, afirma Carlos Griner, diretor executivo de recursos humanos da Suzano.

Despertar o interesse e a conscientização da importância do trabalho voluntário é um esforço constante que a consultoria Deloitte vem fazendo desde 2004. “Além da satisfação em apoiar a comunidade e conduzir nossos negócios de forma socialmente responsável, percebemos claramente o desenvolvimento dos nossos profissionais em relação a trabalho em equipe, liderança, responsabilidade, comprometimento e cooperação”, diz o diretor de recursos humanos, Roberto Sanches. A consultoria adotou recentemente o Instituto Padre Josimo, no Capão Redondo, na zona Sul de São Paulo, para a prestação de serviços na área administrativa, educacional e na estrutura dos prédios.

Com esse mesmo propósito de trabalhar o conceito de voluntariado entre jovens, a ESPM criou há 15 anos a Agência Experimental. Nela, os alunos são levados a atuar em várias frentes de trabalho como consultoria de marketing, comunicação e gestão para ONGs e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Atualmente, conta com 70 voluntários por semestre, que passam por um rigoroso processo seletivo. Nesses 15 anos, mais de 850 voluntários passaram pela agência.

“Nossa preocupação é proporcionar ao aluno o desenvolvimento de habilidades de companheirismo, cooperação, colaboração e liderança”, diz o professor Carlos Frederico Lucio, coordenador da ESPM Social. O resultado é uma espécie de legado. Segundo Lucio, muitos dos seus ex-alunos ajudaram a estruturar projetos sustentáveis em suas empresas, que estão descobrindo que fazer o bem para os outros também é um bom negócio na hora de estimular, engajar e reter profissionais, inclusive em ano de crise.

Fonte: Valor Econômico, por Luiz de França, 24.09.2015

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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