21
março
2016
Clipping, Destaque, Mídia,

Empresas aderem à licença-paternidade.

Em novembro do ano passado, enquanto se preparava para o nascimento da primeira filha, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, anunciou que iria tirar dois meses de licença após a chegada da bebê. No mesmo mês, a empresa passou a oferecer a chamada “licença-parental” para funcionários homens ou mulheres que têm ou adotam filhos em todos os países onde tem escritório. Com a medida, os pais podem escolher tirar até quatro meses de licença remunerada ao longo do primeiro ano de vida do filho, mesmo em países onde o período não é previsto por lei.

Em um cenário em que poucas empresas oferecem políticas similares, a decisão de Zuckerberg se destacou. Mas ela também representa uma tendência crescente de um mercado que tenta acompanhar mudanças sociais, em busca de acomodar funcionários com demandas diferentes – decorrentes, por exemplo, da chegada das novas gerações nas empresas. Muitas companhias já estendem benefícios de mães a funcionários homens, criam programas específicos para esse público ou debatem o papel do pai na família atual.

O capítulo mais recente dessa discussão veio há duas semanas, quando foi sancionada a lei que estende a licença-paternidade de 5 para 20 dias dentro do Programa Empresa Cidadã, criado em 2008 para incentivar a extensão da licença-maternidade de 4 para 6 meses. A medida vai afetar quase 18.700 companhias, que hoje fazem parte do programa. Elas representam, no entanto, apenas 10% das empresas tributadas pelo lucro real, elegíveis a participar da iniciativa em troca de concessão de incentivo fiscal.

Mesmo com efeito prático restrito, entretanto, a mudança na lei pode ampliar a discussão sobre benefícios voltados para funcionários pais, na opinião de especialistas. A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad, acha que a lei pode ajudar a levar esse assunto para os departamentos de RH de empresas de grande porte, fortalecendo uma tendência já observada nos últimos anos. “Se a empresa está preocupada com um público entre 25 e 35 anos, por exemplo, é atrativo oferecer soluções que contribuam para os primeiros anos da vida de um filho.”

Desde janeiro deste ano, a marca de roupas masculinas Reserva, com 750 funcionários, começou a oferecer 30 dias de licença-paternidade. A iniciativa veio do próprio presidente, Rony Meisler. No nascimento dos dois filhos, o executivo tirou férias de um mês – assim como faziam muitos funcionários da empresa, segundo a gerente da área de pessoas da marca, Carolina Portella. “Por que não dar o mês de licença para não prejudicar as férias?”, diz ela.

A decisão foi incorporada ao orçamento deste ano, e a expectativa de Carolina é que ela ajude na retenção e no engajamento do quadro, que hoje tem uma média de 26 a 35 anos – faixa de idade em que, na opinião da gerente, o benefício é ainda mais valorizado.

O gerente de e-commerce da marca, Rafael Passos, descobriu a nova política quando sua mulher, Paula, estava entrando no nono mês de gravidez do segundo filho do casal, a bebê Clara, agora com um mês e meio. A escolha por tirar os 30 dias foi imediata. Fez diferença, no entanto, o fato de o comunicado ter vindo do número um da companhia. “Uma coisa é o funcionário exigir seu direito, outra é a própria diretoria da empresa e os donos definirem isso e as pessoas se sentirem à vontade para aderir”, diz.

Na época do nascimento do primeiro filho, David, hoje com dois anos, Passos geria um negócio próprio e tirou apenas os cinco dias de licença permitidos por lei. “Agora, pude ajudar durante as madrugadas nas primeiras semanas, quando é tudo muito intenso para mãe. Da outra vez, fiz isso menos e ia trabalhar exausto”, diz. Além de compartilhar os cuidados da recém-nascida com a esposa, Passos também considerou sua presença importante para David, que precisou de atenção até se acostumar com a irmãzinha.

Um estudo da Boston College, realizado com mais de mil profissionais pais americanos, a maioria de companhias que oferecem licença-paternidade remunerada, investigou a relação desses homens com o período. Na média, o tempo tirado foi de duas semanas, período disponibilizado pela maioria das companhias. A pesquisa apontou, por exemplo, que quando a licença é opcional, os profissionais tendem a usufruir de todos os dias disponíveis.

Nem todos conseguem, contudo, se desligar completamente do trabalho no período. Quase metade dos profissionais disse que se manteve disponível para emergências, e mais de 40% checou o e-mail diariamente. Menos de 20% disse que não fez trabalho algum durante o período.

A psicóloga e profissional de RH Cristiane Turatti está reproduzindo o estudo no Brasil como parte da sua pesquisa de mestrado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Ela observa que existe uma forte correlação entre a cultura da empresa e a forma como os profissionais usufruem da licença. “Ele precisa sentir que a companhia dá abertura, e perceber que não vai ‘queimar o filme’ se usar a licença”, diz.

No Facebook Brasil, por exemplo, os funcionários pais que já usaram o benefício tiraram, em média, 40 dias de licença logo após o nascimento do filho. Segundo Ana Carolina Borghi, gerente de RH do Facebook para América Latina, a ideia é que o período de quatro meses possa ser usado até o fim do primeiro ano de vida do filho. “Muitos elos são criados nos primeiros estágios de vida e queremos que nossos funcionários possam desenvolver esses laços”, diz.

A Avon, que integra o programa Empresa Cidadã e anunciou a adoção da licença de 20 dias no dia 8 de março, tem tentado, nos últimos dois anos, incentivar os profissionais homens a tirarem férias de 30 dias quando eles se tornam pais. Segundo a vice-presidente de RH, Alessandra Ginante, o número de funcionários que fazem essa escolha cresceu de 1% para 10% nesse período – mas ainda está distante da maioria esmagadora das mães que emendam as férias na licença de seis meses.

Como parte da estratégia de diversidade da empresa, a Avon tem promovido campanhas de comunicação e palestras sobre o papel do homem, abordando temas como a infelicidade masculina. A iniciativa faz parte do planejamento da empresa no Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que reconhece organizações que realizam avanços nesses temas. “Esperamos que a licença de 20 dias faça com que a empresa retenha um tipo de homem que se adapta mais à nossa cultura.”

Também participante do programa Empresa Cidadã, a Nestlé estendeu a licença-paternidade para 20 dias neste março, alguns dias antes da lei ser sancionada. Segundo a gerente executiva de remuneração e benefícios, Mariana Albino, a empresa já havia decidido aumentar o período no fim do ano passado, após o anúncio de uma política global que recomendou a extensão da licença em todos os negócios.

“Todas essas práticas refletem nos resultados de clima organizacional, com mais engajamento e retenção”, diz. Dentre os 20 mil funcionários no Brasil, todos que tiverem filhos têm direito a um “presente nascimento” de um salário mínimo na chegada do bebê, e a auxílio lactante, que subsidia produtos para filhos de até um ano com prescrição médica.

A IBM possui um programa de trabalho flexível chamado “pós-natal para pais”, onde os funcionários que têm filhos podem passar quatro meses trabalhando 40% da jornada de casa. Disponível desde 2007, a o número de profissionais fazendo uso do programa aumentou nos últimos três anos, segundo a líder de diversidade e inclusão, Adriana Ferreira.

Ela atribui o aumento a um incentivo maior da própria IBM por meio da comunicação interna, o que diminuiu o receio de os profissionais se sentirem prejudicados ao adotarem o modelo. “Também fazemos parte da campanha HeForShe [da ONU], que trouxe a tona o fato de a responsabilidade do filho ser compartilhada. O homem não pode fazer isso ‘para ajudar’ porque a função de cuidar do filho não é só da mulher”, diz.

Tania Casado, professora da FEA e diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP, considera a mudança na lei um avanço comportamental. Segundo ela, inúmeras pesquisas apontam que, no geral, a responsabilidade de cuidar do filho e da casa ainda fica com as mulheres mesmo quando ambos têm ganhos similares. Mudanças formais, como novas leis, são importantes para uma transformação cultural. “Não vai ser um processo rápido, mas é um caminho sem volta”, diz.

Fonte: Valor Econômico, por Letícia Arcoverde, 21.03.2016

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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