05
março
2018
Clipping, Notícias,

Como ser um subordinado exemplar no trabalho.

Em nosso canto da redação do “Financial Times” as mesas, escrivaninhas e até mesmo o chão estão cheios de livros sobre gestão. Livros sobre como administrar melhor e formar equipes motivadas. Sobre tomar decisões na hora certa do dia. Ou com menos esforço. Com mais eficácia. E com entusiasmo e propósito. O número de estilos de liderança brilhantes em oferta é, honestamente, exaustivo.

Estou com a gestão em mente porque recentemente voltei, de uma maneira modesta, a ser chefe depois de muitos anos como um membro de equipe. Eu estava folheando esses livros em busca de aconselhamento – mas o que me impressionou foi que nenhum desses especialistas oferece dicas sobre como ser um grande subalterno. Muitos de nós – incluindo eu -são subalternos e supervisor ao mesmo tempo. Portanto, essa omissão me parece estranha.

E se vale a pena definir o que esperamos de grandes gerentes e líderes de equipes, por que não valeria a pena reconhecer as funções dos outros? Um pouco de auto-reflexão nunca é demais, onde que quer estejamos na hierarquia corporativa. Na ausência de orientação profissional, e depois de décadas de coleta de evidências empíricas sobre as funções subordinadas, eu desenvolvi dois conselhos.

O primeiro, e o mais importante, é que subordinados puros, sem nenhuma responsabilidade extra, têm o privilégio do egoísmo – e devem usar isso de forma consciente e sábia. Enquanto um gerente se sente responsável pela equipe, e sente também o estresse de ter de lidar com superiores e subordinados, os subalternos puros não precisam se incomodar com isso. É algo extremamente libertador.

Alguns de meus mais talentosos e realizados colegas sempre foram pessoas que mantêm uma parte de si mesmas afastadas do trabalho. Alguns escrevem livros. Outros fazem bicos.

Alguém trabalha como voluntário em uma instituição de caridade. Durante alguns anos trabalhei três dias por semana. Isso não é uma maneira de avançar na profissão, mas me deu tempo para trabalhar com caridade, passar mais tempo com os filhos e me envolver com a associação de pais da escola.

Para muitas pessoas, concentrar-se no trabalho em que você é bom é muito mais recompensador do que ser promovido a um cargo de gerência, que pode estar longe da zona de conforto e da capacidade de algumas pessoas.

Grandes subalternos podem reconhecer isso melhor do que seus chefes. Com muita frequência na vida corporativa, o foco está em “seguir adiante” e no “desenvolvimento da carreira”. Nem todo mundo quer ou precisa disso. No extremo do egoísmo, todos nós trabalhamos com pessoas que se preocupam apenas com a hora de ir embora, com burocratas e pessoas que sempre estão “doentes” antes e depois de feriados. Essas pessoas nunca vão mudar.

A maioria de nós precisa encontrar um ponto de equilíbrio: até onde nos sentimos responsáveis pelo sucesso de nossa equipe e até onde deveríamos nos concentrar nas próprias necessidades?

Às vezes essas coisas entram em conflito. Podemos instintivamente apoiar os colegas, ajudando-os quando eles estão sobrecarregados, ou fazendo cobertura para pessoas que estão doentes. A coisa complica quando essas situações estressantes são sintomáticas da má administração. Pode ser uma infelicidade e uma confusão estar na função mais baixa da equipe.

O segundo ponto importante de ser um subordinado eficiente está enraizado em nosso relacionamento com os gerentes. Nós também temos responsabilidade pelo sucesso dessa relação? Quando perguntei a não-gerentes sobre isso, alguns afirmaram resolutos que a responsabilidade vem totalmente de cima para baixo. Eles nos dizem o que fazer e nós fazemos. Nossa produtividade e bem-estar é responsabilidade deles.

Não concordo com isso. Os subalternos – especialmente aqueles de nós que gerenciam para cima e para baixo – têm um papel a desempenhar para que as relações funcionem, embora tenha sido novidade para mim ouvir que uma fantasia comum dos gestores é a de membros de suas equipes dizendo a eles o quanto são bons. A maioria das pessoas jamais sonhou em elogiar seus chefes. (Isso é, muito possivelmente, onde tenho errado. Já fui chamada de “insubordinada” muitas vezes.)

Mas não é de bajulação que os gerentes precisam. Eles precisam de honestidade. Um bom subalterno, me disse certa vez uma pessoa sábia, está envolvido em seu trabalho, com a equipe e com os objetivos gerais da companhia – mas não tem medo de dizer ao chefe o que está realmente acontecendo entre os funcionários.

Mesmo quando isso é uma coisa ruim. Talvez seja mais fácil falar do que fazer, mas certamente esta é a aspiração certa. Nós subordinados precisamos ser cuidadosos para não colocar isso como um problema. Os gerentes realmente odeiam problemas.

Espero me sair melhor em minha nova carreira gerencial do que em minha primeira tentativa, 20 anos atrás. Eu era uma jovem jornalista promovida para cuidar da redação de um outro jornal. No primeiro dia, meu repórter mais experiente fez uma declaração de intenções: “Não se ofenda, mas não vou levar em conta o que você disser. Não recebo ordens de pessoas mais novas que eu”. E foi exatamente isso que aconteceu.

Fonte: Valor Econômico / Financial Times, por Isabel Berwick, 05.03.2018

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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