201711.07
Fora
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Companhias colocam os funcionários para correr.

Antenor Zendron, diretor administrativo e financeiro da Gomes da Costa, decidiu trocar o terno e a gravata por um par de tênis. Na companhia alimentícia desde 2005, o executivo acaba de fazer sua estreia na corrida de rua que a marca organiza há quatro anos.

“Além de colaborar para a saúde, o evento promove uma maior integração entre as equipes”, diz o gestor, que lidera 56 pessoas. Segundo especialistas em recursos humanos, Zendron adere a uma atividade que é cada vez mais utilizada como ferramenta de engajamento nas empresas, em um cenário de enxugamento de despesas e pressão pela entrega de resultados.

As organizações que promovem as provas relatam aumento de motivação no ambiente de trabalho, maior comprometimento com metas corporativas e melhoria no relacionamento entre pares e equipes. Em algumas companhias, a adesão dos funcionários às corridas aumentou 30% nos últimos dois anos, enquanto a participação da liderança também subiu.

“Ao incentivarem os colaboradores a interagir fora do escritório, as provas alteram a dinâmica das relações, com reflexos positivos no clima interno e na produtividade dos negócios”, diz José Augusto Figueiredo, presidente da consultoria de recursos humanos LHH.

No modelo de corrida de rua mais comum entre as empresas, o evento é aberto a funcionários, familiares e o público em geral. Os empregados não pagam a inscrição ou recebem descontos na taxa de ingresso. O percurso mais utilizado é o de cinco quilômetros, em ritmo de corrida ou caminhada, indicado principalmente para os iniciantes na modalidade. Não são adotadas práticas como conceder prêmios em dinheiro ou folga aos empregados que vencem os circuitos.

O esporte está tomando espaço na vida dos executivos e a corrida se ajusta à agenda de qualquer profissional, afirma Rochelli Kaminski, diretora de RH da Gomes da Costa. Com dois mil funcionários, a fornecedora de pescados enlatados realiza corridas corporativas desde 2013 e identificou um aumento na adesão dos trabalhadores à atividade, inclusive dos executivos do alto escalão.

Do total de participantes dos circuitos da marca, abertos também à população em geral, cerca de 20% são funcionários. O número de profissionais inscritos subiu de 250, em 2015, para 330, em 2017. Entre os corredores, 5% têm cargos de gerência ou superior.

A participação de executivos cresceu de 1,5% para 5% nos últimos dois anos, diz Rochelli. “Nas semanas seguintes à prova, há uma mudança no clima e na motivação no trabalho”, afirma. “Os comentários nas rodas de colaboradores são sobre o evento que passou e como se preparar para o próximo.”

Segundo a diretora, os empregados que não vão à corrida acabam “contaminados” pelos colegas e muitos decidem entrar na maratona seguinte. No primeiro ano da competição, as inscrições eram encerradas em quatro meses. Em 2017, foram concluídas em apenas um. “O profissional saudável produz mais”, analisa.

“Uma empresa que não possui um ambiente favorável tem dificuldade de atrair e reter talentos.” A última pesquisa de engajamento feita pela companhia identificou uma evolução de quatro pontos percentuais no quesito “qualidade de vida”.

Atentas a esses desdobramentos, outras corporações estreiam nas corridas de rua, que ficaram ainda mais populares após eventos organizados por grandes grupos como Pão de Açúcar e Unimed. No início de outubro, aconteceu a primeira maratona promovida pela Ford.

Com 1,6 mil participantes, quase 500 ou 31% do total eram funcionários. A montadora tem 11,5 mil empregados no país e o evento foi promovido pelo Professional Women’s Network (PWN), que reúne as lideranças do grupo. “A integração entre os funcionários e a presença de familiares e amigos proporciona um sentimento de pertencimento à organização”, avalia Érica Baldini, diretora de recursos humanos da Ford Brasil.

Para reforçar a ligação com a companhia, a prova aconteceu em São Bernardo do Campo (SP), sede da Ford, com trajetos de até seis quilômetros que incluíam a linha de montagem da fábrica. “Fiquei empolgado com a possibilidade de trazer a família para conhecer o meu local de trabalho”, diz Luís Casanova, gerente jurídico da Ford, na empresa há dois anos. O executivo, que foi à caminhada com a esposa e os filhos trigêmeos, comanda uma equipe de 16 profissionais – 10 participaram da atividade. “A corrida aproxima áreas que mantêm pouco contato no dia a dia.”

A realização das provas também é uma forma de trabalhar a integração de departamentos diferentes, concorda Figueiredo, da consultoria LHH. “As pessoas acabam se conhecendo”, diz. “Além de fazer com que os colaboradores cuidem da parte física, as corporações que incentivam práticas esportivas notam melhorias em relação à diminuição de afastamentos por problemas de saúde.”

Segundo o ranking de auxílios-doença concedidos pelo INSS, a dor nas costas é a doença que mais afasta trabalhadores no Brasil por períodos acima de 15 dias. Em 2016, 116,3 mil pessoas tiveram de se ausentar do emprego por, no mínimo, duas semanas, por conta do problema. O número representa 4,7% de todas as dispensas.

Para Villela da Matta, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching, as áreas de recursos humanos devem tomar alguns cuidados para aproveitar melhor o impacto das corridas no quadro de pessoal. “A direção não pode deixar que a prática se torne uma competição de egos ou que funcionários queiram ‘ganhar’ de outros por questões pessoais”, explica. “Nesse sentido, incentivar a formação de equipes de treino dentro da empresa pode ser um bom caminho, porque todos vão compartilhar dificuldades e progressos.”

O especialista afirma que mais funcionários podem ser incentivados a abraçar o esporte se a diretoria fornecer subsídios para os treinos, como assessoria esportiva e pagamento de inscrições em outras provas. Liberar os empregados uma hora antes do fim do expediente para treinos semanais ou convocar uma equipe para representar a empresa em competições em outros Estados também são boas injeções de estímulo, assegura. “Os líderes que participam da atividade despertam empatia entre os subordinados e ganham outras formas de motivá-los na rotina do escritório.”

Fonte: Valor Econômico, por Jacilio Saraiva, 07.11.2017

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