14
junho
2016
Clipping, Notícias,

O não no currículo pode ser encarado como um estímulo.

Aos 21 anos, Eliana Tameirão, gerente geral da empresa de biotecnologia Sanofi Genzyme, teve a sua primeira grande decepção profissional. Ao participar de um processo seletivo para a área de vendas técnicas de uma multinacional, ela passou em todas as etapas e conquistou a simpatia do gestor, mas foi rejeitada na última fase por ser mulher. “Antes de me dar a notícia, o selecionador elogiou as minhas competências e o meu perfil, mas disse que a linha de produtos com a qual eu trabalharia era muito pesada. E que eu não teria força física para carregar o equipamento”, conta.

Esse foi o primeiro “não” que marcou a carreira da executiva – e que, mais tarde, a levou a ser uma ativista da presença feminina no mundo corporativo. “Na época, eu não tinha a consciência de que já estava lidando com o preconceito, mas felizmente não senti aquela recusa como uma rejeição pessoal”. Mais de 20 anos depois, Eliana ouviu um não ainda mais doloroso. Em 2005, já como diretora comercial da Genzyme, ela foi convidada pelo então presidente da empresa a assumir a liderança da organização no Brasil, uma vez que ele seria promovido para cuidar da América Latina.

Seis meses após começar a exercer a função, porém, ela precisou dar um passo para trás na promoção – o comitê da empresa havia decidido que o cargo devia ser ocupado por um executivo mais sênior. A notícia foi um choque para Eliana. “Nesse momento aprendi que alguns movimentos de carreira não dependem apenas do seu chefe. Uma posição de liderança de uma multinacional em um país como o Brasil é uma decisão importante, tomada por um colegiado de pessoas”, afirma a executiva, que cinco anos depois assumiu de fato a posição de gerente geral da organização.

Apesar de toda a frustração e descontentamento que sentiu no momento em que recebeu essa recusa, a executiva sente que os fracassos a ajudaram a se desenvolver. “Meu grande aprendizado foi entender que não há problema em recuar para avançar”, afirma.

Falar sobre os percalços profissionais ainda é um tabu no mundo corporativo – vistos como sinal de fraqueza, eles são frequentemente escondidos pelos executivos ou levados timidamente às sessões de terapia ou coaching. “A nossa sociedade lida mal com o erro. Em geral, os profissionais não querem analisar seus fracassos, mas apagá-los com novas vitórias”, afirma Mara Turolla, diretora da Career Center. Entender e aprender com o erro, porém, são medidas essenciais para a evolução pessoal. “Se bem feito, esse processo ajuda o executivo a escutar, ler contextos, desenvolver o autoconhecimento e a capacidade de autoanálise, além de exercitar a resiliência”, afirma.

Mara explica que a frustração está diretamente relacionada às altas expectativas. “Pode ser que não se trate nem mesmo de um fracasso, mas de uma projeção ou um plano que não saiu como o profissional imaginava”, diz.

Esse foi o caso de Salvatore Lombardi Junior, que em 2010, então diretor da uma empresa de seguros, esperava ser promovido a vice-presidente quando o seu chefe saiu do cargo. Apesar de ser o favorito para a posição, ela foi ocupada por outro profissional, que tinha mais trânsito político na companhia. “Fiquei tão frustrado que parei de correr, desenvolvi ansiedade e outros problemas de saúde. Fiz uma cobrança interna muito forte e achava que tinha errado profissionalmente. Só depois fui entender que não se tratava de uma questão pessoal”, diz.

A saída, segundo ele, foi entender e esperar – ele recebeu apoio de colegas da organização e pares do mercado, continuou na empresa e assumiu uma área nova na América Latina alguns meses depois. “Dediquei-me a estudar a área e a aprender mais, porque sabia que seria reconhecido futuramente pela experiência e conhecimento”, diz. Em 2011, Lombardi aceitou o convite para a Argo Seguros, onde atua hoje como diretor executivo.

Fernando Mantovani, diretor de operações da empresa de recrutamento Robert Half, afirma que é preciso estar psicologicamente preparado para o não. “Toda carreira tem dificuldades. É pouco provável que um profissional seja contratado em 100% dos processos seletivos nos quais participa na vida”, diz.

O mais importante, segundo ele, é entender o que está por trás da negativa e extrair esse aprendizado como desafio para melhorar da próxima vez. Em processos seletivos frustrados, Mantovani aconselha que o candidato busque em redes sociais como o LinkedIn o perfil do profissional contratado para a vaga pretendida. “Pode ser interessante fazer a comparação de competências para entender o que a empresa buscava para aquela posição”, diz.

A autoanálise, segundo o coach Bruno Calderaro, ajuda o profissional a evitar um erro comum após um revés na carreira, que ele chama de “terceirização do problema”. “Nesses casos, a culpa é sempre do outro. Muitos não assumem a responsabilidade pela falha, o que é uma pena, pois a recuperação é uma questão de tempo para quem se coloca na posição de se desenvolver”, diz Calderaro.

Ele se tornou um especialista em aconselhar empreendedores em dificuldades após uma história pessoal de fracassos e aprendizados – sua empresa faliu três vezes por diferentes motivos e só foi bem-sucedida na quarta tentativa. “Gosto de dizer que o sucesso vem no melhor estilo Rocky Balboa – é preciso saber apanhar para continuar a bater”, brinca.

Fonte: Valor Econômico, por Vívian Soares, 13.06.2016

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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