18
fevereiro
2016
Clipping, Notícias,

Quando vale a pena dar um passo atrás.

Quando se pensa em carreira, sempre se pensa em crescimento profissional e promoções. No entanto, em alguns momentos, pode ser interessante fazer um movimento de downgrade (rebaixamento), atrelado a uma aposta de crescimento futuro. Isto pode ocorrer, entre outros motivos, quando há insatisfação com a área de atuação, vontade de empreender, de atuar em um ramo mais alinhado com as suas peculiaridades, a busca por qualidade de vida e a necessidade de se recolocar no mercado de trabalho.

Para a enfermeira com especialização em saúde pública Rachel Redigolo, de 32 anos, esse movimento foi a oportunidade de atingir um objetivo futuro: assumir a diretoria comercial de uma empresa. Para isso, ela deixou o cargo de gestora de qualidade em uma indústria de produtos para saúde para procurar emprego como vendedora. “Fui convidada para o cargo de gerente comercial, mas senti que faltava conhecimento para essa mudança. Queria aprender e conhecer mais sobre o mercado antes de assumir a função.”

Rachel, que nunca pensou em trabalhar em hospital e sempre desejou a área de gestão, sabia que para atingir o objetivo precisava ir além da liderança, era necessário conhecer o processo de vendas desde o início.

“Foi difícil fazer a transição. Reduzi o meu salário em 25%, mas fiz uma avaliação financeira e vi que era viável, porque era solteira e morava com meus pais. Pensei que mais para frente ficaria mais difícil”, conta.

Em maio de 2011, ela começou a trabalhar como vendedora na AxisMed, empresa de gestão de saúde, e depois de dois anos foi promovida a coordenadora. E agora em fevereiro, conquistou a gerência de vendas e marketing da companhia.

“Eu já tinha competência de gestão e mostrei essa habilidade com o gerenciamento das minhas contas. O trabalho como vendedora foi importante, aprendi a arte da negociação e a conhecer o cliente”, diz.

Rumo certo. Satisfeita com a trajetória e a velocidade da carreira, Rachel sabe que está no caminho certo para seu objetivo final: a diretoria. “Tudo que aprendi foi fundamental. O passo para trás foi apenas o impulso para eu conseguir chegar onde eu queria.”

“Muitas vezes o downgrade é conveniente e não existe problema em fazê-lo, principalmente quando o profissional está pensando em impulsionar a carreira. Mas planejar é preciso”, afirma a gerente do núcleo de carreiras do Insper, Maria Ester Pires da Cruz.

“Tenha claro onde quer chegar, dê um significado para essa mudança e não esqueça que terá perdas e ganhos, prós e contras e essa avaliação é uma maneira de planejar”, diz.

O downgrade, às vezes, pode ser um movimento necessário, quando o profissional perde o emprego e está disponível no mercado. De acordo com Maria Ester, este pode ser o momento de rever cargo, salário, funções e ramo de atividade para não perder a chance de se recolocar no mercado. “Lembre-se de que este movimento deve estar alinhado à progressão de futuro e sempre deve dar significado à trajetória profissional”, diz.

Busca e significado. A gerente de carreiras do Insper recomenda que antes de decidir por um downgrade que se pergunte: o que estou buscando? Qual o significado dessa mudança para minha carreira? Para ela, é preciso saber que um rebaixamento deve estar atrelado a novos aprendizados, a conhecimento e networking.

“Faça a leitura do cenário do mercado de trabalho, converse com profissionais que já fizeram esse movimento, faça um plano financeiro para reconsiderar orçamento e saber se pode fazer essa mudança”, alerta Maria Ester.

Pessoal. Para o gerente executivo da Michael Page, Ricardo Rocha, o downgrade está mais atrelado ao salário que ao cargo, uma vez que o mercado tem diferentes nomenclaturas de funções, que podem mudar, inclusive, de acordo com o ramo de atuação da empresa.

No entanto, ele diz que antes de realizar uma movimentação profissional é preciso avaliar a situação econômica e a trajetória profissional no médio e longo prazos. “Deve olhar para carreira hoje com o objetivo de maior ganho lá na frente”, diz.

Segundo ele, por causa da crise muitas empresas têm investido na contratação de profissionais que estão disponíveis no mercado e nesse momento é preciso avaliar o quanto essa mudança, seja uma nova posição, um novo setor ou ramo de atividade pode ser atrativa. “As negociações (entre empresas e profissionais) ficam mais duras e o profissional deve pensar em um horizonte mais longo.”

Rocha diz ainda que, para não ficar muito tempo fora do mercado, o profissional aceita o rebaixamento, mas, mesmo nesse momento, é preciso levar em consideração se vale a pena, se vai ser uma mudança somente no curto prazo ou se será possível desenvolver a carreira.

“A decisão de fazer um downgrade depende do desempenho do profissional, pois a empresa contratará aquele que vai se dedicar e que fará um diferencial na companhia”, diz Rocha.

Para especialistas, mercado de trabalho deve ser avaliado

“Nunca vejo um downgrade na carreira como regressão. Sempre há um aprendizado”, diz o diretor da Talenses Rodrigo Vianna. Ele conta que recebe consultas quase diárias de profissionais que querem mudar de área, de ramo de atividade ou de função.

De acordo com ele, o profissional deve avaliar se tem a possibilidade de mudar para um cargo inferior com menor remuneração, dentro do cenário no qual está inserido o segmento econômico da empresa. Também deve pesar como está o mercado de trabalho geral e específico da sua área de atuação ou daquela em que pretende investir. “Você não pode deixar para trás o conhecimento adquirido, independentemente da área ou ramo de atuação”, diz.

Vianna também destaca a necessidade de considerar as possibilidades futuras, entender como funciona, por exemplo, promoção e plano de carreira nessa empresa para onde vai.

“Existe o downgrade planejado e o que acontece por causa do mercado”, diz a coach Thais Roque. Segundo ela, em muitos casos o downgrade de cargo também poder ser uma busca por melhor qualidade de vida ou para o trabalhador colocar em prática uma habilidade que não tem a oportunidade de usar no emprego onde está.

Segundo ela, é preciso prestar atenção às habilidades, avaliar a função anterior ou atual função e a pretendida. “Muitas vezes trabalhamos em um setor no qual não podemos desenvolver nossas habilidades e um downgrade nesses casos, que pode também envolver uma redução salarial, pode resultar em uma atividade mais prazerosa.”

Para Thais, também é importante buscar oportunidades que estejam alinhadas com os valores. Por isso, é essencial conhecer os pontos fortes e fracos e quais características são importantes para o seu desenvolvimento na empresa.

ENTREVISTA

‘Carreira deve ser tratada com responsabilidade’
Silvana Case, vice-presidente executiva da Thomas Case & Associados

Vale a pena fazer esse movimento de downgrade?
A depender da fase em que se está na carreira e da economia do País, pode ser uma das poucas ou até a única alternativa existente ao desemprego. O downgrade vale para praticamente todos os setores da economia e pode acontecer quando o profissional descobre que está trabalhando em uma área com a qual não há identificação e recomeçar em uma outra área é a alternativa. Mas deve assumir as consequências da nova escolha, com um salário menor.

O que avaliar?
É ideal fazer um planejamento do que se pretende e avaliar a potencialidade do setor da empresa que oferece a oportunidade, perspectivas de crescimento na companhia e/ou no setor, e o quanto poderá aprender, com base no planejamento realizado.

Optar por uma empresa com maior possibilidade de desenvolvimento, mesmo que com diminuição salarial ou de cargo, é determinante para fazer um downgrade?
Por vezes, o downgrade é salarial, ou de status de cargo, mas com melhores perspectivas de aprendizado para a carreira. Em outras, a alternativa é de downgrade de cargo, mas não de salário, pois ter um cargo hierarquicamente menor em uma organização de grande porte pode ser mais significativo e motivador a um cargo maior em termos de nomenclatura, mas com menor grau de aprendizado e exposição.

No desemprego é mais comum aceitar uma proposta de trabalho para um cargo inferior?
Sim. Em momentos de desemprego, a melhor alternativa é sempre aceitar uma nova atividade, mesmo que com downgrade de cargo e/ou salário. Em momentos de instabilidade e crise econômica, seja de um país ou de um setor específico da economia, estar em atividade é a melhor solução. Ter em mente que é sempre um aprendizado é mais benéfico e produtivo para todos os envolvidos.

Como enxergar que fazer um downgrade é dar um passo para trás para no futuro dar dois passos para frente?
Às vezes não há alternativa. Então, neste caso, o que parece menos pode ser muito. O profissional deve entender que é uma fase de transição e que é preciso usufruir deste momento para que assim que possível dar dois ou mais passos à frente, seja na mesma empresa, ou na empresa considerada ideal em seu planejamento.

Em um processo seletivo para tentar retomar o cargo anterior, como explicar para o mercado o downgrade realizado?
Tomando como base o momento do mercado brasileiro, é autoexplicativo. Em situações de recessão, a adaptação passa a ser uma característica comportamental valorizada.
Carreira é estratégia, sem dúvida, e ela deve ser tratada com responsabilidade e com planejamento. Mas até os economistas cometem enganos nas previsões. Então, em muitos casos, o planejamento de carreira necessitará de ajustes, seja para um downgrade temporário, ou para alternativas de carreira que não estavam no planejamento inicial, tendo até mesmo que se reinventar, se for necessário. Não são raros os casos de profissionais que, a partir de uma demissão, mudaram o rumo da trajetória profissional e sentem-se realizados.

Fonte: O Estado de São Paulo, por Edilaine Felix, 14.02.2016

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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