24
agosto
2015
Clipping, Notícias,

Pais cuidam dos filhos dentro das empresas.

Após alguns meses de prática, Marshall Wright achou que já havia se tornado um especialista em programar com uma mão e dar a mamadeira para sua filha Maggie com a outra. “Estabelecemos uma boa rotina. Estava criando laços e fazendo meu trabalho”, afirma. Isso aconteceu em 2006, quando Wright, então um engenheiro de softwares da T3, uma agência de publicidade do Texas, nos Estados Unidos, foi o primeiro pai a participar do programa da companhia que permitia aos funcionários levar filhos pequenos para o trabalho todos os dias por seis meses.

Gay Gaddis, a fundadora da agência, iniciou o plano 20 anos atrás quando quatro funcionárias importantes ficaram grávidas. “Como amiga, fiquei muito feliz por elas. Como empregadora, fiquei preocupada em perdê-las.” Quando ela fez a proposta para as mulheres, todas mães de primeira viagem, elas temeram que aquilo pudesse ser causa de distrações, afetando seu profissionalismo. “Elas ficaram nervosas, temendo a maneira como os bebês iriam se comportar”, lembra Gaddis. Mas as quatro concordaram em tentar, após o término dos três meses da licença-maternidade.

De lá para cá, quase 90 bebês já fizeram companhia aos pais durante o trabalho. Geralmente eles vêm aos três meses, quando termina o período de licença remunerada oferecido pela companhia, e partem aos nove meses, ou assim que a criança passa a ser capaz de engatinhar. Wright ficou nervoso antes de levar Maggie para o escritório, após o término da licença de sua esposa. No entanto, diz ele, os colegas foram compreensivos. “Ficou claro que eu não estaria rendendo 100%, mas ninguém se importou.”

Gay Gaddis, mãe de três filhos, não tem problemas com a redução da produtividade desses pais. “No fim das contas, esse tempo não é tão longo. Se o bebê fica em uma creche, por exemplo, os funcionários também podem ficar distraídos”, ressalta. Wright diz que seu maior crítico é ele mesmo: “Você se cobra mais do que os outros.”

Para Lauren Picarello, diretora de marcas e desenvolvimento de negócios da T3, que começou a levar seu bebê para o trabalho este mês, o esquema ajuda a “estimular uma maior colaboração entre as equipes”. Em outras empresas, como a WS Badger, fabricante de produtos naturais de cuidados com o corpo, o expediente incorpora duas horas não remuneradas, durante as quais os pais podem se dedicar totalmente aos seus bebês.

A relativa popularidade dessas iniciativas nos Estados Unidos, segundo Brad Harrington, diretor do Centro para o Trabalho e a Família do Boston College, é um sinal de que algumas empresas estão tentando enfrentar o problema da incapacidade do governo de conceder licença-maternidade ou licença-paternidade remuneradas. Ele chama atenção para o anúncio feito recentemente pela Netflix, de que concederá uma licença de até um ano para os novos pais – em sua opinião, mais um exemplo de como as empresas estão assumindo essa responsabilidade.

Proporcionar aos pais a oportunidade de cuidar dos filhos é também mais barato e menos burocrático para uma companhia do que implementar creches. Carla Moquin, do Parenting in the Workplace Institute, destaca, no entanto, a importância de existir um “cuidador alternativo” que possa tomar conta do bebê enquanto o pai ou a mãe precisa se concentrar mais em uma determinada tarefa ou participar de uma reunião. “Isso precisa ser voluntário. As pessoas não podem se sentir pressionadas.”

Wright não chegou a fazer um acordo formal com algum colega, mas diz que muitos se ofereceram para ajudar. “Um homem generoso, também pai, sempre percebia quando eu precisava de uma pausa. Ele então se oferecia para cuidar da Maggie.” O executivo insiste que não recebeu nenhum tratamento especial por ser homem e se encontrar em uma situação excepcional. “As pessoas acabam se aproximando naturalmente, assim como aquelas que não gostam de ter bebês por perto simplesmente não se oferecem para ajudar”, afirma.

De acordo com Carla, esses programas devem ser abertos a todos os funcionários, e não se restringir aos chefes. Afinal, benefícios exclusivos podem criar uma insatisfação generalizada, conforme descobriu a executiva-chefe do Yahoo, Marissa Mayer, quando construiu um berçário para seu próprio filho dentro da empresa, ao mesmo tempo em que proibiu os funcionários de trabalharem de casa.

Carla ressalta também que há uma ideia errada de que bebês choram demais. “Geralmente isso não acontece, pois os escritórios possuem diversos estímulos. Trabalhar de casa quando estão apenas você e seu filho é difícil, porque as crianças querem atenção.” No Japão, Yuka Mitsuhata, fundadora da Mo-House, que fabrica roupas para mães lactantes e encoraja os funcionários a levarem os filhos pequenos para o trabalho, concorda que os bebês ficam calmos no ambiente corporativo. Mesmo assim, Carla sugere que as empresas reservem um quarto silencioso para onde eles possam ser levados quando chorarem. Wright se lembra de momentos em que Maggie ficou tão mal-humorada que ele precisou sair com ela do escritório.

Para Yuka, o fato de seus funcionários não trabalharem em sua plenitude é compensado pela lealdade que ganha deles. Também é uma maneira de ajudar a manter as mulheres no mercado de trabalho, fator identificado pelo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe como de grande importância para o crescimento econômico. Gay Gaddis acredita que sua política encoraja a lealdade dos funcionários em um setor caracterizado pela grande rotatividade. “Recrutar custa caro e os clientes criam relações com os funcionários”. Wright, hoje diretor de conexões, está na T3 há dez anos e, além de Maggie, também levou a filha mais nova para o trabalho.

Nancy Rothbard, professora de administração na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, afirma que enquanto algumas pessoas gostam de misturar o trabalho com a vida pessoal, outras preferem manter as duas coisas separadas. “Dependendo de como você for, iniciativas desse tipo podem deixá-lo feliz ou insatisfeito.” Ela enfatiza que as distinções entre o trabalho e a vida doméstica são relativamente novas. Antes da revolução industrial, quando as famílias vivam no campo, ou no andar de cima da loja, não havia essa separação.

Gay Gaddis diz que os bebês revelam uma cordialidade inesperada nos funcionários mais fechados. “Às vezes, a caminho de uma reunião, encontro algum funcionário brincando com um bebê. Isso torna essas pessoas mais humanas.” Carla revela que já ouviu falar de colegas que omitem a capacidade de seus bebês de engatinhar, porque querem mantê-los no escritório por mais tempo.

Quando as filhas de Wright começaram a se movimentar sozinhas, ele teve sentimentos contraditórios. De um lado, estava pronto para voltar a se concentrar totalmente no trabalho. Mesmo assim, ele ficou triste porque não teria mais a companhia delas no escritório. “Acabei me acostumando em tê-las aqui.”

Fonte: Valor Econômico / Financial Times, por Emma Jacobs, 24.08.2015

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