11
junho
2015
Clipping, Notícias,

Para economizar, empresas trocam os programas ao vivo pelos virtuais.

Recorrente nas empresas ao longo deste ano, o mote do “fazer mais com menos” está levando as companhias a repensarem os investimentos em programas de treinamentos e desenvolvimento de profissionais. A necessidade de estimular a produtividade e eficiência, no entanto, significa que essas ações não podem parar.

Uma das saídas tem sido a adoção da educação a distância em suas mais variadas formas, como garantia de alcançar mais funcionários com custos menores – e ainda ter mais facilidade de medir os resultados por meio do grande volume de dados que os sistemas produzem.

“Toda empresa tem pressão para cortar custo. O profissional de RH precisa ser criativo para buscar alternativas com qualidade”, diz Rodrigo André Fernandes, diretor de recursos humanos da empresa do setor de telecomunicação NET, que vem crescendo 20% ao ano e hoje tem 18 mil funcionários em 200 cidades do país. Até 2013, contudo, a empresa ainda não adotava treinamentos a distância, o que encarecia os custos da área e impedia o acesso a um número significativo de empregados com a velocidade necessária. Hoje, os técnicos que atuam em campo podem acessar os conteúdos de treinamento e manuais até pelo celular.

Os cursos, que antes atingiam cerca de metade do quadro, hoje alcançam 100% dos funcionários. “Hoje, 30% dos programas são on-line, e a meta é ficar entre 40% e 60%. A relação custo-benefício é infinitamente mais em conta”, diz Fernandes. Em 2014, foram oferecidas 64 horas de treinamento por funcionário e, segundo o diretor, o resultado – medido por uma série de avaliações – foi igual ou superior aos presenciais. Os cursos em sala de aula, contudo, continuam sendo o foco nos níveis de liderança, onde há predominância de programas que trabalham aspectos comportamentais.

Como a maior parte dos gastos em treinamentos presenciais é com logística, o custo-benefício do “e-learning” é um dos motivadores para o fortalecimento da tendência, identifica Marcos Braga, diretor da área de educação corporativa da Deloitte. A presença maior de jovens no mercado de trabalho e o acesso mais fácil à tecnologia também contribuem. “Outro ponto é que as frentes de conhecimento hoje estão mais dispersas e diversificadas. Com o on-line você pode treinar pessoas mais rapidamente em assuntos mais pontuais”, diz Braga. Um exemplo adotado recentemente por diversas empresas são treinamentos sobre questões de governança, código de ética e Lei Anticorrupção.

De acordo com um levantamento da consultoria, realizado com 126 empresas no Brasil, 33% do investimento realizado por elas em educação corporativa é destinado a métodos de ensino a distância. A pesquisa também aponta que 28% das companhias já possuem universidades corporativas, e outros 28% têm planos de implementar uma nos próximos dois anos. “O ′e-learning′ facilita a criação das universidades em grandes empresas onde os funcionários estão pulverizados em muitos lugares”, diz Braga. Foi de olho nesse mercado que a própria Deloitte começou uma frente de negócios voltada para a área no fim do ano passado.

A adoção de ferramentas de treinamento a distância é um fenômeno que no Brasil ainda tem grande margem para crescimento, na opinião de Romain Mallard, diretor da empresa de educação corporativa on-line Crossknowledge. “Nos EUA, as companhias dedicam 50% do orçamento da área para o treinamento virtual”, diz. A atual demanda por soluções se reflete no crescimento da empresa. Globalmente, a Crossknowledge tem crescido entre 25% e 30% ao ano – no Brasil, o ritmo é ainda mais alto. A atual crise econômica, para ele, é um catalisador para que as empresas repensem seus treinamentos em relação ao custo e a capacidade de comprovar resultados.

Na empresa de logística TNT, a adoção do “e-learning” começou no ano passado, e hoje já representa 40% dos treinamentos oferecidos. Até 2016, a meta é chegar a 50%. “Temos 110 unidades em todo o país e, quando falamos de Brasil, falamos de um continente. Os custos de logística dos treinamentos eram maiores que o pago pelos cursos”, diz o diretor de RH, Antonio Flauzino dos Santos. Reduzir gastos foi um dos principais motivos para a mudança, junto com a necessidade de padronizar os treinamentos, chegar a um maior número de funcionários e aumentar a carga horária oferecida. A nova estratégia de ensino ajudou a reduzir os custos em 40%.

A possibilidade de acessar os dados sobre o uso dos cursos facilita o acompanhamento por parte dos gestores do desenvolvimento de suas equipes. Por conta disso, os 700 profissionais em cargos de liderança também recebem aulas a distância. “É importante que o executivo vivencie a ferramenta e seja cobrado pelo uso dela, para que ele possa passar isso aos subordinados.” Chega sempre um momento, contudo, em que a presença na sala de aula é essencial, diz Santos.

O gerente geral de treinamento corporativo da empresa de educação on-line Ciatech, Rodrigo de Godoy, percebe que neste ano de ajustes a tendência não é cortar completamente as aulas presenciais, e sim diminuí-las. “Antes, se a empresa tinha um treinamento presencial de 10 dias, hoje ela cria uma base on-line e promove o encontro entre os funcionários em 3 dias”, diz.

A Ciatech, que faz parte do grupo UOL Educação, cresceu 25% no ano passado e, segundo Godoy, essa escala deve se manter em 2015. Para ele, a adoção de programas a distância também faz parte de uma tendência cada vez mais forte nas empresas de incentivar os funcionários a serem responsáveis pelo próprio desenvolvimento.

Esse foi um ponto fundamental na decisão do Bradesco de criar, no início deste ano, uma ferramenta de treinamento on-line para os gestores. Por meio de vídeos curtos, de três a quatro minutos, os profissionais recebem lições em diversos temas ligados a liderança. Ainda em fase piloto, o projeto já atinge 8 mil dos 20 mil líderes do banco.

Entretanto, dedicar uma plataforma aos profissionais mais seniores foi uma novidade, segundo Victor Queiroz, gerente do departamento de RH do banco. “As pessoas acham que o executivo não tem apelo para fazer os cursos on-line, mas estamos descobrindo que não é bem assim”, diz. Além dos vídeos, os profissionais participam de fóruns de discussão.

O autodesenvolvimento tem sido um dos pilares da universidade corporativa do Bradesco, criada em 2013. Segundo Queiroz, é um aspecto importante para quem deseja crescer no banco, que já é conhecido pelas possibilidades de carreira interna. “A pessoa recebe o conhecimento no ritmo dela, com mais autonomia”, explica. O investimento na área de desenvolvimento de pessoas em 2015 se manteve em relação ao ano passado – R$ 130 milhões. Porém, a tendência agora é apostar no on-line, com o presencial sendo usado de forma complementar. Alguns programas, contudo, continuam sendo ao vivo. “Quando a intenção não é só aprender um conteúdo, mas reforçar a aderência à cultura da empresa, ser presencial faz toda a diferença”, diz.

Formatos interativos estão mais populares.

O uso de conteúdo fragmentado, de fácil acesso em qualquer lugar e que gere dados que possam ser usados para compreender o papel dos treinamentos dentro da estratégia do negócio são algumas das principais tendências da área de educação corporativa on-line hoje.

Na opinião de Romain Mallard, diretor da Crossknowledge, o mais buscado hoje são conteúdos rápidos, com metodologia focada em estudos de caso e formatos mais interativos. A Crossknowledge produz, inclusive, materiais que podem ser usados como ferramentas de trabalho, como fichas que ajudam a organizar reuniões. “As aulas são adaptadas para aproveitar os tempos mortos do dia, como espera entre reuniões ou viagens”, diz.

Quando o assunto é vídeo, o formato mais usado, a tendência é o conteúdo fragmentado. “Menos é mais”, explica o gerente geral de treinamento corporativo da Ciatech, Rodrigo de Godoy. Peças mais curtas, que se complementam mas podem ser absorvidas de forma individual, são amplamente demandadas. Por conta disso, a “smartificação” – facilidade de acessar conteúdos em celulares e tablets – também é uma tendência que segue forte nos últimos dois anos. “As pessoas querem mobilidade”, diz.

A Ciatech publica, anualmente, um estudo com as dez principais tendências da área de educação corporativa. O deste ano inclui ainda o saber social, que pode ser alavancado por empresas que promovam a interação entre funcionários – seja em chats, fóruns de discussão e até grupos em aplicativos como o Whatsapp. “É um reflexo direto das novas formas de comunicação do mundo hoje. Quando aprendo de forma colaborativa, tem mais valor para mim”, diz Godoy.

Já a tendência que deve aparecer com mais força nos próximos anos, segundo o gerente, é a “experiência tin can”, que possibilita o cruzamento de informações sobre o andamento de cursos com os resultados de um funcionário dentro da empresa. “É uma forma de comparar os objetivos do treinamento com os do negócio”, diz.

O cenário atual de crise econômica também influencia nos conteúdos mais demandados pelas empresas, segundo Mallard, da Crossknowledge. “Hoje há procura por cursos sobre gestão de mudança, como adaptar a estratégia da empresa ao contexto e gestão de complexidade e de riscos, bem como cursos sobre redução de custos”, diz.

Fonte: Valor Econômico, por Letícia Arcoverde, 11.06.2015

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