20
outubro
2016
Clipping, Mídia,

A economia colaborativa ajuda na inclusão social?

Sou um grande usuário de Uber e de outros aplicativos de transporte, por todos os motivos que já sabemos: previsibilidade de tempo e valores, conforto, facilidade para acompanhar gastos, além do fato de que os motoristas se utilizam de aplicativos que mostram as alternativas mais rápidas para os destinos (algo que taxistas tradicionais raramente usam). Outra razão é que quando algo deu errado tive com quem reclamar e rapidamente obtive respostas. Para quem está sempre viajando em cidades que não conhece, me sinto muito mais seguro com eles do que com os serviços tradicionais de transporte.

Tive recentemente uma experiência interessante com esse tipo de serviço. Estava com amigos e atrasado para um compromisso, então chamei um carro pelo aplicativo. Ao conectar com o motorista, o aplicativo me avisou que ele era surdo-mudo e me perguntou se, mesmo assim, eu aceitaria. Comentei com meus amigos que recomendaram chamar outro motorista já que estavam com pressa. Não aceitei a ideia e confirmei o pedido. De fato, fiquei curioso como seria essa experiência. Antes mesmo de aceitar meus neurônios já tinham se conectado e sugerido que nada poderia dar errado. Já tinha definido o meu trajeto, o pagamento acontece pelo aplicativo, então as possibilidades de interação com o motorista eram mínimas.

Esses tipos de aplicativos são parte da chamada “gig economy” (chamada no Brasil de economia colaborativa, que particularmente acho inadequado), onde freelancers vendem seus trabalhos para indivíduos ou empresas que necessitam de seus serviços ocasionalmente. Em um “mundo digital” onde as pessoas estão mais conectadas, esses aplicativos funcionam como intermediários, tornando mais efetivo, rápido e prático o encontro entre fornecedores e interessados.

Obviamente, as possibilidades da gig economy vão além do transporte A Josephine.com é um bom exemplo: conecta pessoas com cozinheiros em comunidades que fazem comida caseira. UpCounsel conecta pessoas e empresas com advogados, Catalant conecta consultores em gestão, estratégia e marketing com quem precisa desses serviços, a Gigster terceiriza o desenvolvimento de softwares utilizando freelancers. O índice de satisfação dos serviços tem sido altíssimo tanto por indivíduos como empresas.

Os números são extraordinários, pelo menos nos Estados Unidos. De acordo com pesquisa realizada pela revista Times, 44% dos americanos já utilizaram serviços oferecidos pela gig economy e 22% oferecem serviços através dessas plataformas. A primeira reação é pensar que as pessoas que optaram por esse tipo de trabalho o fizeram por falta de alternativa, mas a quantidade de pessoas que a escolheram para ter independência, flexibilidade ou qualidade de vida ou para complementar a renda é significativa. Como muito dos serviços podem ser realizados em qualquer lugar, oferta e demanda se encontram. No fim das contas, esse modelo reduz a exposição ao desemprego e acelera o encontro de interesses, aumentando a dinâmica econômica de uma sociedade.

Bem interessante é que 51% dos que oferecem seus serviços assumem estar melhores financeiramente e 71% classificam como positivo trabalhar nessa indústria, o que quebra o preconceito de alguns que acreditam que esse caminho representa o subemprego.

Outro indicador surpreendente: 55% dos trabalhadores nesse segmento são membros de minorias raciais e étnicas. Centenas de estudos provam que nosso cérebro privilegia aquilo que fomos educados culturalmente a entender como “melhor” e isso implica em raça, gênero, idade, origem social, entre outros atributos.

Por essa razão, meus amigos reagiram quando comentei que o condutor era surdo-mudo, ou eu mesmo tive dúvidas até constatar que não existiria problema. Como não vemos cara nem sotaque quando estamos nos conectando, o potencial da gig economy é enorme.

No caso do motorista de Uber surdo-mudo, seria muito mais difícil sua inclusão em uma empresa de táxi comum. No Brasil, país com quase 6 milhões de surdo-mudos se estima que menos de 3% trabalhem regularmente. Incluir esse grupo, assim como muitos outros, significa reduzir o custo social associado a eles e incluí-los no mercado de trabalho.

Voltando à minha experiência, chegamos no local sem atrasos, no mesmo tempo que qualquer outro motorista faria, já que o gargalo em cidades grandes é o tráfego e não quem dirige. Posso confidenciar que saí do carro feliz, e meus amigos surpresos.

Países ainda estão lidando com o rápido crescimento das pessoas nessa forma de trabalho. Na grande maioria, as leis não deixam claro a legalidade, as responsabilidades associadas, e muitos optam em inibir iniciativa baseados em ideologias, sem compreensão do contexto e dos efeitos desse modelo, em prejuízo das pessoas. A gig economy é resultado de uma transformação profunda que sociedades, organizações e o que conhecemos como trabalho estão sofrendo em todo o mundo. Obviamente deve-se discutir e regular os abusos, mas sem perder de vista o impacto que sua adoção pode trazer.

(*) Claudio Garcia é vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York.

Fonte: Valor Econômico, por Claudio Garcia (*), 20.10.2016

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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