18
fevereiro
2016
Clipping, Doutrina,

Longa fatura do desemprego.

O desemprego cresceu e ganhou novas feições em 2015. Ele ficou mais longo, mais velho, mais experiente, mais masculino e atingiu igualmente todos os níveis de escolaridade. Pela primeira vez em mais de duas décadas, o país cortou postos de trabalho formais para profissionais com curso superior.

A taxa média de desocupação passou de 4,8% em 2014 para 6,8% em 2015 nas seis principais regiões metropolitanas e foram eliminados mais de 1,5 milhão de empregos com carteira assinada no país todo. Os efeitos negativos da recessão, da desaceleração da China, da queda de preço das commodities, da crise na Petrobras e do ajuste fiscal sobre o mercado de trabalho vão continuar em 2016 e talvez se prolonguem para 2017 e 2018. Mas além do corte de empregos e da renda, que desestruturam famílias, há uma conta extra em gestação. Quando o Brasil voltar a crescer, parte do esforço feito em qualificação e formação de mão de obra nos últimos anos terá se perdido, o que pode retardar a retomada.

Parte dos desempregados estará, de novo, desqualificada para os empregos que serão gerados. Parte estará empregada em outras funções, o que tornará a recontratação uma tarefa mais difícil para as empresas. O Brasil sairá da crise menos produtivo e a mão de obra, menos qualificada. O tamanho desse problema será proporcional à duração e à profundidade da recessão, dizem economistas.

Na atual crise, o período de desemprego já está mais longo. Em dezembro, 35% dos desempregados procuravam emprego havia mais de sete meses. Isso não ocorria desde dezembro de 2005, dez anos atrás. A gerente comercial Valéria Nobre foi demitida em setembro de 2014. A cearense, formada em psicologia, administração e marketing, trabalhou por 17 anos nas empresas de comunicação do grupo Edson Queiroz e agora sente dificuldade para se recolocar pelo nível mais elevado de sua remuneração média.

Cerca de um ano e meio atrás, ela usou praticamente toda sua verba rescisória para investir em uma distribuidora. Com o aprofundamento da crise, entretanto, o sócio desistiu do negócio e ela teve de usar a criatividade para garantir alguma renda para a família. Desde então, tem feito trabalhos como freelancer, dando palestras em empresas sobre as oportunidades de investimento no Nordeste e, aproveitando a rede de contatos extensa que acumulou, intermediando negócios entre companhias e fornecedores. Ainda assim, ela, o marido e o filho tiveram de fazer algumas “adaptações” no dia a dia. “O que eu quero mesmo é voltar a trabalhar com a carteira assinada”, conta.

Valéria também compõe a estatística dos desempregados que são chefe de família, grupo que cresceu 55% entre 2014 e o ano passado e que protagonizou, para o coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho, a mudança mais surpreendente revelada na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para ele, esse avanço pode estar ligado ao perfil das vagas cortadas em 2015, que penalizou setores como indústria e construção civil, que mais frequentemente empregam arrimos de família.

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), também aponta aumento mais intenso do desemprego entre os chefes de família na região metropolitana de São Paulo, onde passou de 6% para 7,6%, informa o coordenador da pesquisa pela Fundação Seade, Alexandre Loloian. “Esse é um movimento que preocupa mais, justamente pelo impacto sobre as famílias”, diz. Além disso, pondera, esse é normalmente um profissional mais experiente, mais qualificado e com maior salário.

Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos, o aumento do desemprego entre profissionais mais qualificados e as transformações setoriais devem reduzir o crescimento potencial da economia brasileira no curto prazo. “Nas crises, há sempre perda de capital humano. Durante a retomada, é natural que haja uma incompatibilidade entre oferta e demanda. As empresas terão dificuldades para recontratar”, pondera o economista, destacando os setores de óleo e gás e o naval, que passaram por um boom de investimentos há menos de dez anos e agora experimentam uma desaceleração forte de atividades.

Nos últimos cinco anos, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) do Rio de Janeiro formou cerca de 200 mil profissionais em cursos relacionados direta ou indiretamente à indústria naval e do petróleo e gás, desde aperfeiçoamento até pós-graduação, passando pelos técnicos, explica Allain Fonseca, gerente de Cursos e Recursos do Senai Rio. Apenas no ano passado, 25 mil empregos foram fechados no Estado nas áreas de indústria extrativa, extração de petróleo e construção naval, consumindo parte do esforço de qualificação feito nos últimos anos.

Fonseca lembra que, quando a indústria naval “voltou”, há menos de dez anos, correu atrás dos profissionais da década de 80, já aposentados, porque não havia mais trabalhadores qualificados no país. “Não tínhamos profissionais, e foi preciso um esforço muito grande para treinarmos essa mão de obra”, pondera. Ele avalia que uma parte expressiva das qualificações pode ser facilmente adaptada para outros setores. Um soldador treinado para trabalhar em embarcações pode ser aproveitado na linha de montagem do setor automobilístico. O soldador, diz, não vai desaprender a soldar. “Mas essa é uma função de habilidade manual, então ela exige treino. Você não desaprende, mas fica menos produtivo quando para por um longo período.”

Para Menezes Filho, do Insper, o grupo dos trabalhadores “intermediários”, cuja escolaridade chega, no máximo, ao ensino médio completo, é o que deve enfrentar maior dificuldade para se recolocar quando a recuperação chegar. “As vagas com esse perfil têm desaparecido e a crise tende a agravar isso. Quem vai ter maior problema para encontrar emprego serão esses trabalhadores, especialmente os mais jovens.”

A tendência é que o desemprego seja menor nas duas pontas do mercado de trabalho, entre aqueles que têm baixíssima qualificação e os que ocupam cargos gerenciais, afirma o economista. Os profissionais mais qualificados, acrescenta Menezes Filho, têm a vantagem de poder aproveitar o atual momento de crise para investir na formação – em cursos de especialização ou no meio acadêmico, por exemplo -, buscando um diferencial para quando a temperatura no mercado de trabalho voltar a subir.

Esse é, em parte, o caso da bióloga Marta Krafta, que, até o fim de janeiro, prestava serviço para o estaleiro EBR, em São José do Norte (RS). Primeira funcionária contratada pelo empreendimento controlado pelo grupo Toyo Setal, ela saiu em 2011 da consultoria em que trabalhava para se dedicar à área de licenciamento ambiental do novo estaleiro. Desligada após o término do contrato, a gaúcha pensa em voltar a dar aulas na universidade e em iniciar o seu doutorado. “A expertise que adquiri lá abriu meus horizontes, mas não penso em continuar nessa área. Acho que quem trabalhava em funções mais específicas do estaleiro tem agora opções mais limitadas”, ela afirma.

O EBR foi um dos últimos estaleiros a desacelerar as atividades após a deflagração da Lava-Jato, que afetou fortemente a indústria naval ao revelar os mecanismos de corrupção na Petrobras. Há cerca de seis meses, conta Marta, quando o impacto negativo sobre as encomendas parecia inevitável, já que a empreiteira estava implicada nas investigações, o conselho que dava aos colegas que a procuravam – e que ela mesma seguia – era “economize”.

A advertência faz sentido, especialmente diante da expectativa de aumento do desemprego pelo menos até 2017. De acordo com as estimativas da MCM Consultores, a taxa média de desocupação nas seis principais regiões metropolitanas deve ir 10,1% neste ano e para 10,8% em 2017. Mesmo quando a economia voltar a crescer e o país voltar a gerar empregos, pondera Sarah Bretones, economista da instituição, o Brasil dificilmente voltará a registrar no médio prazo mínimas históricas de desemprego como em 2013 e 2014.

Em estudo divulgado recentemente, Sarah destaca que toda a economia brasileira, inclusive o mercado de trabalho, se beneficiou bastante do boom chinês – um ritmo de crescimento que dificilmente se repetirá no futuro, ela avalia. “O ‘choque’ chinês foi responsável por grande parte do crescimento do PIB observado na última década”, aponta Sarah. No estudo ela conclui que a taxa de desemprego brasileira teria sido, em média, 1,7 ponto percentual maior nos últimos anos se não fosse a ajudada dada pelo elevado crescimento chinês de 2003 a 2012.

“Esse período foi fruto de uma conjunção de fatores positivos para a economia nacional que dificilmente se repetirão em um horizonte relevante”, ela completa. Assim, diante de uma expectativa de recuperação da economia no próximo ano, com avanço de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB), o desemprego – que tradicionalmente reage de forma defasada aos demais indicadores – cederia muito gradualmente e ficaria em 8,6% em 2020. Bem acima da taxa média de 6,8% do ano passado.

Um alento, destaca Ramos, da UnB, é que a indústria, um dos setores que mais perdeu empregos em 2015, deve ser beneficiada pelo câmbio desvalorizado nos próximos anos e voltar a contratar durante a retomada. O termômetro, afirma, são os setores mais intensivos em mão de obra, como o calçadista e o têxtil. “Os contratos de exportação são mais fáceis de fechar nesses segmentos. A indústria automotiva deve levar mais tempo”, diz ele.

Loloian, da Fundação Seade, já percebeu sinais dessa movimentação no ano passado. No fim de 2015, a pesquisa Seade/Dieese surpreendeu por mostrar uma recuperação do emprego industrial. Foram criados 30 mil empregos no setor de transformação em dezembro. Para Loloian, esse resultado pode ser associado ao comércio exterior. “Os dados sugerem um processo tímido de substituição de importações, o que pode ajudar a produção de manufaturados”, pondera o economista, acrescentando, contudo, que é cedo para considerar essa uma tendência. Ele espera aumento do desemprego em 2016, com maior impacto do setor de serviços, que será afetado pela queda no poder de compra da população. A massa salarial encolheu R$ 20 bilhões no ano passado apenas na grande São Paulo, pela combinação de queda do rendimento e dos postos de trabalho.

Outro ponto positivo, defende Ramos, é que a tendência atual de aumento do desemprego é conjuntural, decorrente do ciclo recessivo. “Não existe mais aquele excedente estrutural de mão de obra que caracteriza os países subdesenvolvidos”, ressalta. Um indício, para ele, é a absorção da força de trabalho dos haitianos que têm migrado para o país e continuam sendo contratados para vagas operacionais, de baixa remuneração. “É uma escala menor do que acontece na Espanha, por exemplo. Mesmo quando o desemprego bateu 25%, a safra de morangos continuou sendo colhida por imigrantes.”

Para o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Saboia, as demissões do ano passado combinam um choque recessivo muito forte, cujo reflexo ficou evidente nas demissões do setor de serviços – as primeiras desde 1998 na série do Caged -, a perda de competitividade da indústria e o corte do investimento, que afetou o setor de construção. “Não sabemos até onde vai a recessão, portanto não sabemos até onde vai o desemprego. A retomada deve vir em algum momento entre 2017 e 2018, e será lenta”, diz.

Saboia, contudo, também concorda que o desemprego não será tão grande como visto nos ciclos recessivos do passado. “A transição demográfica exerce um papel importante nesse movimento. Tem menos gente entrando no mercado de trabalho, e isso ameniza um pouco o crescimento do desemprego. Os jovens vinham retardando a entrada no mercado de trabalho, estavam estudando mais”, pondera Saboia. Mesmo que conjunturalmente os jovens voltem a procurar emprego se o chefe de família ficar desempregado, o professor da UFRJ considera que a mudança demográfica e o maior acesso à universidade têm efeitos estruturais sobre o mercado de trabalho. Nos anos 90, no auge dos efeitos recessivos do Plano Collor, o desemprego chegou a 14% na grande São Paulo.

Nos últimos anos, além da queda na taxa de desemprego, o mercado de trabalho também ficou menos precário, o que deixa os trabalhadores menos desamparados nos primeiros meses da demissão. Pelos dados do IBGE, nas seis regiões metropolitanas, a participação dos trabalhadores com carteira assinada subiu dez pontos em dez anos, chegando a 54% do total, enquanto o emprego sem carteira recuou quase na mesma proporção. A ocupação por conta própria, que chegou a um mínimo de 17,5% do total em meados de 2012, voltou a crescer na crise, e voltou a 20% em dezembro passado (19,4 % na média de 2015)

Para Loloian, o aumento da formalização dos últimos anos decorreu tanto de uma maior fiscalização do Ministério do Trabalho, como de uma mudança nas relações de trabalho, inclusive pela “disputa” entre as empresas pelos trabalhadores mais qualificados. “O mercado de trabalho também ficou mais moderno no Brasil”, diz ele, avaliando que é pequeno o risco de um retrocesso com volta à relações mais precárias. A ameaça, diz, é a crise abrir espaço para o avanço de leis que ampliem o espaço para a terceirização diante do discurso de redução do custo trabalhista.

Eduardo Frias trabalhou durante 40 anos na Mercedes Benz, em São Bernardo do Campo. Em 2014, aproveitou um dos pacotes de demissão voluntária oferecidos pela montadora e saiu da empresa, abrindo mão da estabilidade que possuía por integrar a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Desde então, ajuda a mulher, Valdete, na empresa de turismo que ela já tocava. Ao contrário de 1983 – quando foi demitido durante a crise e foi recontratado alguns meses depois -, Frias não pretende voltar porque já está com 61 anos. Lá atrás, foi diferente. “Eu trabalhava na importação, a empresa me chamou de volta e fui para a contabilidade, de onde depois fui trabalhar na exportação.” A fluência em espanhol e o trabalho de atender visitantes de outros países hoje ajudam no trabalho de turismo. “O que não ajuda é a crise e o dólar”, diz Frias, reclamando do movimento fraco no trabalho por conta própria.

Aposentado, ele não pretende mais voltar para uma ocupação fixa quando o setor automotivo voltar a contratar no ABC. A renda da agência, da aposentadoria e a poupança da indenização adicional recebida no PDV lhe dão tranquilidade para o futuro. “Meu filho é diferente. Ele é montador, e é muito qualificado, tem vários cursos do Senai, ele volta se for chamado. E vai ter emprego para ele quando a crise acabar”, pondera, lembrando do próprio passado, 32 anos atrás.

Para economistas, o Brasil precisa ser mais ágil em antecipar mudanças no mercado de trabalho e evitar que qualificações se percam em uma crise ou que se continue formando trabalhadores que não são mais necessários. Nesse sentido, países com bons sistemas de intermediação de mão de obra, como os nórdicos e a Alemanha, conseguem fazer essa transição mais rapidamente. Para atingir um aproveitamento semelhante, o Sistema Nacional de Emprego (Sine) do Brasil precisaria ser reformado, diz Ramos, da UnB.

No Senai Rio, os cursos diretamente relacionados à indústria naval receberam 42 mil matrículas em 2014 e 29 mil em 2015. Neste momento, alguns cursos, como o Técnico em Construção Naval não são oferecidos, diz Allain Fonseca. “Agora estamos concentrando a oferta em cursos mais transversais, onde uma mesma formação pode ser aproveitada em diferentes setores”, explica.

João Saboia, da UFRJ, pondera que um longo período de desemprego, na prática, apenas expõe mais os problemas de produtividade que o Brasil já possui. “A crise só agrava essa situação”, diz. Para ele, o efeito do descompasso vai depender do tempo, de quando ocorrer a retomada. “Quanto mais tempo afastado, mais defasado ele fica, mas esse não é um problema de agora.” O ideal, diz, é que em momentos de crise como o atual o Estado pudesse atuar mais, reforçando cursos de formação de mão de obra, investindo mais no aumento da escolaridade, ampliando vagas e revendo currículos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

Em 2016, porém, o ajuste fiscal em curso já reduziu para R$ 1,6 bilhão o orçamento desse programa, valor bastante inferior aos R$ 4,7 bilhões reservados em 2015, que já eram menores que os R$ 5,3 bilhões de 2014. Fonseca, do Senai Rio, explica que além dos repasses federais, os cursos também são bancados pelos repasses feitos pelas empresas, mas esses são afetados pela crise. “O próprio investimento feito internamente pelas empresas para atualizar o quadro de pessoal fica reduzido ao mínimo em uma recessão”, acrescenta.

O coordenador da PED pela Fundação Seade minimiza o risco de um descompasso entre a qualificação do trabalhador que está sendo demitido hoje e aquela que será requerida na retomada. “O estoque de mão de obra será grande e a maioria possui habilidades versáteis. A capacidade de adaptação é grande”, avalia ele, pensando em técnicos de nível médio para a indústria. “A produtividade não é só do trabalho, ela depende também dos equipamentos e da cultura da empresa”, diz. Loloian concorda, contudo, que essa variável está diretamente ligada ao tempo de duração do desemprego e da recessão. Na pesquisa Seade/Dieese, o tempo médio de procura de emprego passou de 24 para 28 semanas na região metropolitana de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico, por Denise Neumann e Camilla Veras Mota, 12.02.2016

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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