29
maio
2020
Artigos e Entrevistas, Clipping,

Piores empresas para trabalhar: quando o home office é o pesadelo

Aumento da carga de trabalho, cobranças descabidas, gritos, ameaças e deboche. O que fazer quando o gerente fica louco?

São Paulo – “O que te custa?” As demandas e cobranças extras de trabalho para Raquel* sempre terminavam com essa pergunta. Com o decreto da pandemia do novo coronavírus, sua carga horária, agora em home office, dobrou e os abusos começaram, segundo relatou a profissional em uma entrevista para VOCÊ S/A sob condição de anonimato.

De acordo com Raquel, aumento arbitrário do escopo das atividades, cobranças descabidas e trabalho aos fins de semana se transformaram no “novo normal” na empresa da área de comunicação e com sede do Rio de Janeiro na qual ela trabalhava.

A gota d’água para o pedido de demissão caiu em uma teleconferência com todos os funcionários. Ao questionar a decisão de aumentar suas atribuições diárias de novo, Raquel ouviu gritos do chefe em resposta. “O sócio aumentou a voz e debochou, dizendo que eu deveria me sentir privilegiada porque poderiam estar cortando salários. Mas, a empresa não teve nenhuma redução de receita por conta da pandemia”.

Em setores mais ou menos abalados pela crise do coronavírus, não é difícil encontrar gestores perdidos e funcionários sobrecarregados, dois dos sintomas mais frequentes de relações de trabalho adoecidas.

Cultura de comando e controle

A falta de cultura de home office é um notório complicador para chefes que não querem abrir mão do estilo de comando e controle. “Para quem não tinha essa política, o home office cria insegurança no ambiente, a cobrança pode ser inapropriada, vir de todos os lados”, diz Mônica Ramos, diretora de operações na Consultoria LHH.

Segundo a legislação trabalhista, profissionais em home office não estão sujeitos a controle de jornada. “O entendimento é o de que é complexo controlar a jornada embora isso seja relativizado na Justiça”, diz a advogada Adriana Piton, sócia do escritório Granadeiro Guimarães.

O tempo dedicado ao trabalho em home office é dimensionável, diz a advogada, por meio de sistemas de login ou por meio do volume das entregas. “Não dá para dizer que é isento de controle”, diz Adriana.

Em algumas empresas, as reuniões diárias são utilizadas como mecanismo de controle de jornada, de acordo com Mônica, da LHH. Não por acaso, a exaustão por conta do excesso de teleconferências é epidêmica na pandemia de coronavírus e ganhou até uma alcunha internacional: Zoom fatigue (fadiga do Zoom, aplicativo de reuniões virtuais).

Além de exaustos, muitos brasileiros estão ansiosos, estressados e deprimidos. Pesquisa feita pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) com 1 460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país revela que enquanto a incidência de depressão dobrou, as ocorrências de estresse e ansiedade cresceram 80%, na quarentena.

A falta de inteligência emocional na liderança é outro aspecto que pode afetar as equipes nesse momento é a falta de inteligência emocional na liderança. Sem isso, atitudes bélicas como a que o chefe de Raquel adotou durante a reunião com o time se tornam comuns. “Líderes com inteligência emocional agem com maior tranquilidade sob pressão, conseguem ver o lado bom da situação. Se o profissional não têm essa competência, as dificuldades são maiores, ele acaba explodindo, desconta na equipe, pratica assédio moral”, diz Mônica.

O que é assédio moral

Conduta abusiva, o assédio moral é caracterizado pela recorrência do tratamento inadequado a um funcionário – ou seja, é preciso que o comportamento ofensivo seja repetido algumas vezes e que atinja a dignidade tanto física quanto psíquica da vítima. Na Justiça, é possível pleitear indenização por danos morais e físicos, se houver, além da rescisão indireta do contrato de trabalho, em que recebe todas as verbas de uma demissão sem justa causa

“Uma atitude isolada não é considerada assédio”, diz a advogada Adriana. Mas ofensa única grave, que cause dano moral, no entanto, também é passível de indenização na Justiça. “Vai depender da intensidade do sofrimento causado”, diz Adriana.

Embora se considere vítima de assédio moral, Raquel consultou um advogado e decidiu que não vai à Justiça pela dificuldade de comprovar os abusos sem ajuda de testemunhas. “Meus colegas não iriam querer testemunhar, têm medo de perder o emprego. Eu me senti mais impotente ainda, mas o melhor que posso fazer é me desligar empresa”, diz ela, que também teme represálias no mercado de trabalho.

Líderes, cuidado com o tom

Por ser um momento de crise, é comum que os gestores tenham que conduzir conversas difíceis com os funcionários e tomar decisões duras. Mas elas exigem preparo prévio e nunca devem ser feitas em momentos de abalo emocional, indica a diretora da LHH. “Tomada pela emoção, a fala pode ter um tom agressivo, ou trazer palavras que representem ameaça”, diz Mônica.

Isso é ainda mais importante porque só aqueles que mantém a calma conseguem fazer o exercício da escuta com empatia.  Colocar-se no lugar do outro nas crises é a melhor estratégia para preservar os resultados, inspirar a liderança e fortalecer o engajamento, conforme explicamos na matéria de capa da edição de abril/maio da VOCÊ RH.

Funcionários que se sintam sobrecarregados e sem condições para cumprir metas devem chamar seus gestores para conversas individuais para repactuação de prazos.

Um colega de trabalho de confiança pode validar a percepção, antes da reunião com o chefe “É interessante compartilhar com um outro membro da equipe para ter uma segunda opinião, porque às vezes o profissional também está com sentimentos aflorados e pode estar enxergando as coisas com tons mais intensos”, diz Mônica.

Fonte: Você s/a, por Camila Pati, 21.05.2020 – com entrevista concedida pela sócia Adriana Pinton

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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