05
fevereiro
2020
Clipping, Mídia,

Dupla jornada de estudo e trabalho ganha força entre jovens brasileiros.

Estagnação das vagas nas faculdades públicas e mercado de trabalho ultracompetitivo explicam movimento, dizem especialistas

Cresce no Brasil o número de jovens em idade universitária que estudam e trabalham ao mesmo tempo, particularmente entre aqueles que frequentam instituições de ensino privado. Para especialistas, a estagnação no número de vagas nas instituições superiores públicas e um mercado de trabalho ultracompetitivo, que exige cada vez mais formação dos jovens, explicam por que uma maior parcela deles tem recorrido à dupla jornada para pagar por cursos superiores privados.

Entre os jovens de 19 a 24 anos que estudam, o percentual daqueles que também trabalham subiu de 45,4% em 2016 para 48,3% em 2019, somando 2,6 milhões de estudantes que enfrentavam no ano passado uma dupla jornada, ou 144 mil a mais.

No caso do jovens que estudam em instituições privadas, o percentual daqueles que também trabalham passou de 54,4% a 58,3% no mesmo intervalo de três anos, para um total de 1,7 milhão.

Já no ensino público, a quantidade de jovens de 19 a 24 anos que estudam e trabalham é menor do que no ensino privado, tanto em termos percentuais, quanto em números absolutos. Eles eram 35,5% do total de estudantes em 2016, passando a 36,7% em 2019, num total de 924 mil no dado mais recente, segundo levantamento da consultoria IDados divulgado em primeira mão ao Valor. Com base em números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o estudo compara os terceiros trimestres de cada ano – período que tem o microdado mais recente disponível.

“Enquanto o ensino básico é ofertado universalmente a todos os jovens, há um afunilamento no acesso às instituições superiores públicas”, diz Thaís Barcellos, pesquisadora da IDados. “O jovem que está estudando e trabalhando tem que ir então para uma instituição privada.”

Esta também é a avaliação de Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). “Com o mercado de trabalho mais competitivo, os jovens precisam se qualificar mais”, afirma. O economista lembra ainda que as instituições públicas de ensino superior praticamente não têm aumentado suas vagas, apesar do crescimento do número de jovens aptos a cursar o ensino superior, devido à expansão do acesso ao ensino médio. “Acaba que os jovens então trabalham para pagar seus cursos privados”, afirma Duque.

O menor percentual de alunos trabalhando está na faixa etária de 14 a 15 anos: 5,5% do total de alunos em 2019, sendo 2,2% dos matriculados em escolas privadas e 6,1% em escolas públicas. Formalmente, esses jovens só podem estar empregados como aprendizes. Mas, nessa faixa etária, há também parcela significativa de jovens que atuam como trabalhadores familiares auxiliares, ou seja, ajudando parentes sem remuneração.

O percentual de estudantes que trabalham sobe a 17,6% entre os jovens com idade de 16 a 18 anos, sendo 14,7% dos que estudam em escola privada e 18,1% daqueles que estudam em instituições públicas. “Comparando as redes de ensino, vemos que o percentual de alunos trabalhando que estudam em escolas públicas é maior até os 18 anos de idade. Dentre os alunos com idades entre 19 e 24 anos, e que trabalham, a situação se inverte”, observa a pesquisadora do IDados.

Essa inversão de tendência pode reforçar a impressão de que os ricos são maioria no ensino superior público, relegando os mais pobres ao ensino privado. Mas a coisa não é bem assim, explica Adriano Senkevics, doutorando em educação pela USP e pesquisador visitante na Universidade de Toronto.

Senkevics destaca que, na educação superior brasileira, o ensino privado é majoritário, com mais de 70% das matrículas. Então o ensino pago concentra o maior número de alunos, sejam mais ricos ou mais pobres.

No entanto, os mais ricos têm perdido participação no total de alunos, tanto no ensino público, como no privado, devido ao avanço no acesso dos mais pobres, por meio de políticas como cotas, expansão das universidades públicas nos anos 2000 e interiorização de campi. Os 20% mais ricos eram 54% dos estudantes de universidades públicas em 2005, caindo a 36% em 2015. No ensino privado, essa participação foi de 67% a 37%.

Já os 40% mais pobres eram 8% do corpo discente das universidades públicas em 2005 e passaram a 23% em 2015. No setor privado, esse percentual foi de 3% a 16%. Ou seja, os mais pobres seguem subrepresentados no ensino superior, em ambos os tipos de ensino, mas proporcionalmente têm presença maior no setor público do que no privado. “Isso ajuda a desmistificar a ideia de que no setor público só tem rico, como se a presença dominante dos ricos também não existisse no setor privado”, diz Senkevics.

Segundo o pesquisador, outro fator que ajuda a explicar o crescente percentual de jovens que estudam e trabalham nas universidades privadas é a expansão recente do ensino a distância, que já representa cerca de 25% das matrículas. Muitos jovens que interrompem sua formação após o ensino médio pela necessidade de trabalhar acabam voltando a estudar por meio dessa modalidade, que é mais barata e mais compatível com a jornada de trabalho, diz.

“O setor público, além de ser gratuito, dispõe mais do que o privado de apoio estudantil”, lembra ainda Senkevics. “São políticas de permanência e assistência que conseguem minimizar a necessidade de trabalho por jovens de menores condições socioeconômicas”, afirma. O especialista diz também que, pelo fato de o ensino público ser mais prestigiado, as famílias podem fazer esforço maior para que os jovens que conseguem acessá-lo concluam seus cursos e dediquem-se à sua formação. Daí também a menor evasão no setor público do que no privado.

Fonte: Valor Econômico, por Thais Carrança, 05.02.2020

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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