22
outubro
2019
Clipping, Notícias,

Não basta buscar propósito apenas no trabalho.

O colunista Renato Bernhoeft defende que a procura permanente por um ou mais propósitos na vida não se esgota na perspectiva profissional.

O último filme de Catherine Deneuve, “Adeus à noite”, que estreou recentemente no cinema, trata de um tema importante e delicado, abordando os vários dilemas na relação de uma avó e seu neto. Na trama, o jovem decide visitá-la para se despedir, mas sem contar que abraçou a causa islâmica da Jihad, e vai lutar, voluntariamente, na Síria. O filme segue a trilha vista no tunisiano Mohamed Bem Attia, intitulado “Meu Filho Querido”, quando um filho adere também à causa jihadista, em uma decisão que não é compartilhada com a família. Mas, o que de fato nos interessa, como tema e foco neste artigo, são os motivos que têm levado um significativo contingente de jovens a esta busca, considerada por muitos como quase suicida.

Segundo a antropóloga Dounia Bouzar, que ajuda famílias com filhos que buscam alternativas radicais dessa natureza, a causa escolhida não tem, para a maioria, motivos religiosos, pois 40% das famílias envolvidas nem sequer são muçulmanas. Ela é usada apenas como um chamariz pelos hábeis recrutadores. Suas conclusões indicam que “o alvo são jovens suburbanos em busca de um propósito” que estão ansiosos por encontrar algo que os ajude a superar o vazio de suas vidas.

Ela amplia suas observações dizendo que “há ainda casos de jovens que buscam no recrutamento promoção social, um emprego remunerado ou simplesmente encontrar meninas para superar algum trauma afetivo”. Vale ressaltar de que esta mesma abordagem, centrada na falta de ‘propósito’, pode ser ampliada para muitos outros públicos – jovens, adultos na meia-idade, desempregados ou idosos sem uma atividade regular – em várias partes do mundo. É algo também observado em várias faixas etárias.

A importância de uma busca permanente por um ou mais propósitos na vida não se esgota na perspectiva eminentemente profissional, como é muito comum em nossa sociedade. Esta busca deve ser estendida a todas as demais dimensões da vida e aos vários papéis que vivemos ao longo da nossa existência. Em relação ao mundo do trabalho vale registrar as conclusões do mais recente livro do professor de Stanford, Jefffrey Pfeffer, intitulado “Morrendo por um salário – Como as práticas modernas de gerenciamento prejudicam a saúde dos trabalhadores e desempenho da empresa – e o que podemos fazer a respeito”. O alvo do seu conteúdo é demonstrar que o modus operandi do novo universo do trabalho, mais escraviza do que liberta. Segundo ele, este aparente quadro de modernidade só tem feito crescer a tensão psicossocial no ambiente de trabalho além de ampliar os conflitos familiares.

Como exemplo, ele afirma que um dos ambientes de trabalho mais tóxicos está situado no Vale do Silício, onde estão as empresas consideradas como as mais inovadoras e criativas do mundo. Ao exemplificar ele afirma que “as empresas podem dar a esses trabalhadores mesas de pingue pongue ou sushi, mas o que esses profissionais querem é algum senso de segurança e a oportunidade de equilibrar as suas várias obrigações na vida”.

Enfim, o que busco estabelecer com esta relação entre arte e literatura corporativa é o quão importante se torna, a cada dia, a busca de um propósito que dê sentido à vida como um todo. E esse dilema só pode ser encaminhado pelo próprio indivíduo. Não existem gurus milagrosos ou até mesmo receitas mágicas que facilitem esta busca.

Fonte: Valor Econômico, por Renato Bernhoeft, 22.10.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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