14
agosto
2019
Clipping, Notícias,

O que faço se estou odiando o meu trabalho?

O consultor Gilberto Guimarães diz que é preciso definir um projeto de vida antes de procurar outro emprego.

Sou nova, nunca trabalhei e fiz um curso técnico em administração para conseguir um emprego. Recentemente, consegui uma vaga em uma grande empresa. No início, o gerente e o supervisor me disseram que a vaga era para auxiliar administrativa e que o trabalho era super tranquilo, mas no primeiro dia percebi que o trabalho era no call center, que é a única coisa com a qual eu não gostaria de trabalhar. Tenho problemas com ansiedade e depressão, já fiz tratamento, mas parei por falta de dinheiro. Em pouco tempo, já tive crises de ansiedade por conta do contato com o público que não tem respeito. Tenho medo de não conseguir lidar com esse trabalho e piorar meu quadro de ansiedade. Não sei se é por ser meu primeiro emprego e porque minhas expectativas eram outras, mas já posso dizer que odeio o que faço. Não posso sair do trabalho e não quero manchar a minha carteira profissional. O que devo fazer? – Assistente técnica, 19 anos

A quantidade de pessoas que trabalha em empresas ou serviços de “call center” cresceu muito nos últimos anos. O setor ocupa hoje um grande espaço no mercado de trabalho. Ele se transformou no maior empregador da área de serviços. Emprega algo em torno de 1,5 milhão de profissionais, no Brasil, sendo composto em sua maioria por mulheres jovens com idade média de 23 a 25 anos (53% do total) e com 82% tendo 2º grau completo. Tem sido a porta de entrada dos jovens no mercado de trabalho. Normalmente os níveis de exigência para contratação são relativamente baixos e não pressupõem muita experiência. Portanto é normal que aos 19 anos o seu primeiro emprego formal tenha sido em um call center. Por outro lado, os call centers apresentam elevados índices de rotatividade provavelmente ligados às particularidades do trabalho, por suas exigências rigorosas, pelo pouco reconhecimento, pelo controle excessivo das atividades e pela baixa remuneração.

A alta rotatividade normalmente está associada aos índices de insatisfação dos funcionários. Além disso, estudos comprovam que o trabalho em call center apresenta particularidades que podem favorecer o surgimento de patologias relacionadas ao trabalho, ao estresse e ao burnout. A síndrome de burnout é um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse, com sintomas de exaustão extrema gerada por condições difíceis de trabalho. Pode acarretar sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia, aumento do distanciamento mental e sentimentos de negativismo relacionados ao próprio trabalho com consequente redução da eficácia profissional. Atinge majoritariamente quem trabalha diretamente com o atendimento ao público, em particular nas áreas de educação, saúde, segurança e, agora, mais modernamente, nos call centers. Fica, portanto, claro que o que está ocorrendo com você é muito comum.

A maioria dos jovens começa a vida profissional pelos call centers, mas assim que podem saem e partem em busca de novas oportunidades. Poucos permanecem e fazem carreira em call centers. Portanto, organize-se para realizar a sua mudança, mas nada de sair de maneira impulsiva e sem ter conseguido uma nova oportunidade. Planeje seu futuro. É hora de pensar em carreira e não apenas em emprego. Existe, hoje em dia, um conceito muito forte, quase dogmático, segundo o qual, fazer carreira é conquistar ascensão hierárquica e ganhar um bom salário em grandes empresas. Isso que tem feito a cabeça de boa parte dos jovens profissionais, que acabam transformando este conceito em meta e objetivo de vida e passam a buscar cargos com altos salários como objetivo e não como consequência do sucesso profissional. Esta busca, alias, é um processo angustiante, porque as chances de se conquistar uma destas raras oportunidades dependem muito mais de avaliações subjetivas de recrutadores do que das reais competências.

Os recrutadores, por sua vez, tanto os das empresas como os profissionais, com medo de errar na seleção, escolhem candidatos com currículo de maior peso, e acabam por criar uma verdadeira ditadura de padrões de requisitos. Nela, o perfil adequado para uma carreira de sucesso exige, por um lado, um candidato jovem, com muito tempo de bancos escolares e dominando pelo menos dois idiomas, mas, paradoxalmente, com muita experiência e tempo de trabalho, com muitas realizações. Será isso possível mesmo? Será que para fazer carreira é isto que se precisa? Provavelmente não. Se fizermos um levantamento entre os profissionais de sucesso vamos constatar que existem muito poucos com muitos títulos acadêmicos.

Os profissionais bem-sucedidos conquistaram o sucesso valendo-se de outros diferenciais e competências. A razão deste sucesso é ter um projeto de vida muito claro e coerente com suas características, seus dons naturais, ou seja, fazendo o que mais gostam de fazer e, o que mais sabem fazer. Eis a “resposta”. O profissional só conseguirá ter sucesso quando definir quais são suas preferências e competências, qual é a solução que oferece ao mercado, qual o problema que ele sabe e gosta de resolver e tendo encontrado quem precisa do que ele tem para oferecer. O que atrapalha, no entanto, é a confusão entre um objetivo e os meios para consegui-lo. Um cargo é apenas um meio, um caminho para chegar ao sucesso, e não o destino, o objetivo. E, pior de tudo é que, se o objetivo é ganhar muito dinheiro, provavelmente o caminho para chegar lá talvez seja outro do que um cargo em uma grande empresa, como assalariado. Menos de 2% dos empregados ganham salários superiores a 25 salários mínimos e, na verdade, os “muito ricos” no Brasil, representam menos de 1% da população e destes apenas 8 % trabalham como assalariado. Os outros 92% dos “muito ricos” tem outra forma de ganhar a vida. É preciso modificar este paradigma de fazer carreira. Ele cria angústia nos mais jovens e desespero nos mais velhos. No afã de conseguir a tal carreira os profissionais acabam agindo impensadamente, na base do “o-que-der-deu”.

Um exemplo claro disto são os programas de trainees. Os “jovens formandos” se inscrevem em todas as oportunidades, nos mais diversos setores, nas mais diversas empresas e funções. Isto é um contrassenso, uma pessoa não pode ter preferências comportamentais, competências e dons naturais para áreas e tarefas tão distintas uma das outras. Ele com certeza não poderá ser eficaz e competente em todas. Por outro lado, os profissionais um pouco mais experientes, no momento em que estão buscando novas oportunidades, com o objetivo de melhorar o currículo, aplicam grande parte de seu tempo e recursos em cursos, sem ao menos refletir se de fato tem a vocação exigida ou se algumas destas opções de cursos podem facilitar sua evolução na carreira. Não adianta fazer um curso daquilo que você não gosta. É preciso ter foco.

Cursos e treinamentos são válidos quando estão diretamente relacionados com seu projeto, suas preferências e competências. Cursos não aumentam empregabilidade. Estatísticas mundiais apontam que 85% dos profissionais contratados por empresas não são selecionados pela avaliação de seus currículos em resposta a anúncios abertos ou enviados a empresas de recrutamento. As pessoas são escolhidas por meio de indicações, por recomendação e com aval de conhecidos. Isto é ainda mais forte no Brasil, onde 98% das empresas são micro, pequenas ou médias, com até 100 funcionários, e que representam mais de 70% das oportunidades de trabalho, e que fazem suas contratações por indicações, pois nem possuem RH estruturado ou serviço de recrutamento e seleção. Por isso, antes de se apresentar ao mercado de trabalho ou assumir sua veia empreendedora defina claramente seu projeto de vida. Qual é seu objetivo? O que você quer? É poder, dinheiro, status, reconhecimento ou qualidade de vida? Enfim, defina seu projeto de vida. Só assim, com muito foco, você conseguirá ir além dos paradigmas do mercado e provar que o conceito de carreira é pessoal e intransferível. Escolha seu alvo e faça acontecer.

(*) Gilberto Guimarães é professor e diretor da GG Consulting. Faz treinamentos sobre gestão de mudanças, desenvolvimento de talentos e liderança positiva.

Fonte: Valor Econômico, por Gilberto Guimarães (*), 14.08.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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