08
agosto
2019
Clipping, Notícias,

O happy hour está ficando mais sóbrio.

Nova geração prefere eventos corporativos sem álcool.

Julia Phillips, uma organizadora de eventos corporativos, percebeu uma mudança nos pedidos dos clientes para suas atividades pré-jantares: bebidas sem álcool. Antes, uma típica atividade para formação de equipes envolvia uma série de desafios à base de álcool. Mas embora os clientes ainda gostem de eventos regados a bebidas alcoólicas, eles querem cada vez mais oferecer aos funcionários a oportunidade de eles prepararem também coquetéis não alcoólicos.

“Podemos fazer um coquetel com bastante lima-da-pérsia, mas também com a possibilidade incluir vodca”, diz Julia, que é diretora-gerente da agência de eventos Crescendo. Esses pedidos dos clientes aumentaram de cerca de 10% para 50% nos últimos 18 meses, diz ela.

No passado, os funcionários expressavam um motivo para não beber, diz ela — por exemplo, ter de dirigir, por motivos religiosos ou por gravidez. Mas os trabalhadores mais jovens tendem a não se importar. “Os da geração millennial simplesmente querem estar onde não vão precisar beber— eles não dão um motivo para isso. É simplesmente uma diferença entre gerações.”

Embora não exista um desejo de abandonar completamente a coqueteleira, os funcionários querem mais opções. “As pessoas querem aprender. Elas gostam da experiência de, digamos, aprender sobre a história do rum”, diz Julia. Há paralelos entre essa tendência e os “flexitarianos” — pessoas que são vegetarianas, mas comem carne de vez em quando. “As pessoas querem misturar as coisas”, afirma.

As fabricantes de bebidas estão aproveitando essa tendência, em que os consumidores-alvo são descritos como “curiosos sóbrios” ou “bebedores conscientes”. A Diageo, por exemplo, investiu na Seedlip, uma companhia britânica que fabrica bebidas destiladas não alcoólicas, enquanto a Anheuser-Busch InBev e a Heineken desenvolveram nos últimos anos suas linhas de bebidas não alcoólicas ou com baixos teores de álcool.

Um fator que pode explicar essa tendência é uma maior preocupação com a saúde, embora outras questões estejam relacionadas como uma mudança nas atividades de lazer, como os jogos. As redes sociais, que podem se transformar em um tribunal público de julgamento de bebedeiras, seriam outro fator.

O movimento #MeToo também forçou muitas empresas a começarem a rever suas políticas em relação ao álcool. Este ano, o mercado segurador do Lloyd’s de Londres anunciou que iria impedir a entrada em suas dependências de pessoas sob influência de álcool ou drogas. A iniciativa foi tomada depois de queixas de assédio sexual e de uma proibição do consumo de bebidas durante o dia.

Mas o entretenimento corporativo — os drinks após o trabalho, os encontros sociais, cerimônias de premiações e até mesmo incentivos — ainda é dominado pelo álcool. Um executivo da área de relações públicas observa que é impossível fazer “a velha guarda perceber que distribuir uma garrafa de vinho barato como recompensa por um bom trabalho não precisa mais ser uma norma — que, na verdade, isso transforma em excluídos aqueles que não bebem”.

O foco no álcool não está confinado às grandes organizações mais estabelecidas. A cultura da irmandade das companhias de tecnologia também vem sendo criticada. Em 2014, Kara Sowles, que trabalha na Puppet Labs, uma companhia de tecnologia dos Estados Unidos, escreveu: “Sem a cultura da bebida, será que o mundo das startups ainda seria o bastião das festas descoladas que o difere do corporativo tradicional?”

A cultura do álcool significa que as pessoas se sentem pressionadas a beber, diz Stephen Pereira, um psiquiatra cujos clientes são em grande parte profissionais do centro financeiro de Londres. “Diante da escolha, muitas pessoas podem não beber, mas há uma expectativa de que se outros estão bebendo, elas também deveriam. As pessoas não querem se sentir excluídas.”

Simon Eastwood, um “coach” corporativo, concorda. Os eventos de trabalho são “tão voltados para o álcool que eles frequentemente fazem as pessoas que não bebem se sentirem como se não fizessem parte do ‘clube’”, diz ele. Uma pesquisa da Niznik Behavioural Health, uma organização dos EUA que trata dependentes do álcool, constatou que cerca de 35% dos funcionários das empresas não querem beber durante os eventos, mas destes, 15,8% acabam fazendo isso assim mesmo.

No horário do almoço de um dia ensolarado no centro financeiro de Londres, do lado de fora de um pub, três recrutadores na faixa dos 20 e poucos anos, cada um com um copo de bebida alcoólica na mão, dizem que sempre bebem nos eventos de trabalho. A empresa onde eles trabalham organiza atividades não alcoólicas inclusivas, como um dia de esportes, mas depois “nós vamos para um pub”, diz um deles.

Lauren Booker, um consultora da Alcohol Change UK, diz que essa sensação de exclusão tende a afetar mais os profissionais mais velhos. “Esse é um padrão arraigado na medida em que você sobe na hierarquia administrativa. As pessoas mais jovens são menos inclinadas a beber.”

Os drinks depois do trabalho podem ser um problema para os muçulmanos jovens que não bebem, diz Shelina Janmohamed, autora de “Generation M: Young Muslims Changing the World”. “Eles querem sair com as pessoas mais velhas.” Ela acredita que as coisas estão mudando lentamente: “Não é uma coisa de outro mundo dizer que você não quer sair para beber.”

Laura Willoughby, cofundadora da Club Soda, um movimento que prega o consumo consciente de bebidas, diz que os eventos corporativos são duros de roer. “Os serviços de bufê precisam atender a uma demanda saudável, oferecendo saladas, além de hambúrgueres na hora do almoço. Mas eles não estendem isso para a noite. No entretenimento corporativo isso é deixado para trás”, diz ela.

No ano passado, em uma postagem em seu blog, Lauren Booker descreveu uma recepção corporativa como pretensiosa por ter grandes quantidades de champanhe e cervejas artesanais. Ela diz que havia apenas suco de maçã e de laranja, servidos com canudos verdes e brancos para quem não queria bebidas alcoólicas.

Laura Willoughby diz que o antiquado não está apenas na pouca escolha de bebidas sem álcool, mas também na maneira como elas geralmente são servidas. Os garçons estão sempre completando os copos daqueles que estão consumindo bebidas alcoólicas, mas os demais precisam se servir sozinhos.

Uma grande parte do problema são os custos, diz Julia Phillips. “Muitos hotéis [locais de eventos corporativos] são movidos a álcool — as margens são lucrativas. A remarcação dos preços sobre as bebidas não alcoólicas é bem menor.”

Há também um problema de recursos: os orçamentos são apertados e a responsabilidade pelos eventos é sempre passada para um assistente administrativo assoberbado, diz Kara Sowles. “Eles podem investir na saúde de sua equipe reconhecendo o planejamento dos eventos corporativos como um trabalho essencial, separando um orçamento suficiente para proporcionar opções que funcionem para todos.”

Mas as coisas estão começando a mudar, acrescenta ela. “As equipes estão perguntando: quais atividades podemos fazer juntos que não excluam muitos de nossos colegas? As respostas, felizmente, estão ficando melhores a cada ano que passa.”

Stuart Elkington, fundador da Dry Drinker, que vende bebidas não alcoólicas e de baixo teor alcoólico, diz ter registrado um aumento de 20% nas encomendas das empresas nos últimos 18 anos. Isso vem sendo

em parte motivado pelos “produtos inovadores”, afirma ele.

O Fugitive Motel no leste de Londres possui uma ampla carta de bebidas não alcoólicas. Seu fundador, David Burgess, diz que está sendo procurado por empresas para hospedar eventos. “Tenho 35 anos e adoro aqueles que têm 21 cujo consumo de álcool está em queda. Isso vai provocar uma mudança no mundo corporativo.”

Fonte: Valor Econômico / Financial Times, por Emma Jacobs, 08.08.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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