30
julho
2019
Clipping, Notícias,

Como combater os danos ao emprego?

Enquanto a tecnologia cria novas relações de trabalho, muitas vezes informais, e ameaça deixar muita gente sem emprego, alguns países começam a avaliar que tipo de política pública pode ser adotada para realocar trabalhadores ou simplesmente proporcionar uma renda mais estável à população. As ideias vão da adoção de uma renda mínima à extensão de benefícios sociais para quem não tem emprego formal. No Brasil, onde já existe uma espécie de renda básica, especialistas apontam para a necessidade de mudanças no sistema de ensino de jovens e requalificação de adultos.

Recentemente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) enviou questionários aos países que fazem parte do grupo perguntando que medidas estão sendo estudadas ou implementadas, tendo em vista o avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho e as mudanças demográficas. As respostas foram reunidas no relatório “Respostas Políticas às novas Formas de Trabalho”, lançado neste ano. Segundo a OCDE, medidas de proteção social têm de ser adaptadas à nova ordem, especialmente porque o trabalho por conta própria, em tempo parcial e intermitente está aumentando no mundo. Além disso, muitos adultos no bloco – 6 em cada 10 – não têm as habilidades tecnológicas necessárias para esse novo mercado.

As medidas mais comuns citadas são a extensão do seguro-desemprego a trabalhadores por conta própria e informais, a melhora no acesso de intermitentes e autônomos a benefícios, como auxílio-maternidade e seguro saúde. Em um dos casos, na Estônia, foi citada a implantação de um sistema de saúde universal, como o SUS brasileiro. Projetos de renda básica são escassos e a maioria se limita a regiões específicas e não a países. O caso mais rumoroso, o da Finlândia, foi deixado de lado após dois anos de testes. Mas essa iniciativa tem defensores ilustres como Elon Musk, CEO da Tesla, e o prêmio Nobel de Economia Angus Deaton.

Esse tipo de programa pode diminuir os impactos sociais e econômicos da diminuição drástica de postos de trabalho, com recursos vindo, por exemplo, da tributação da automatização nas empresas, afirma Herbert Kimura, pesquisador do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), da UnB. Mas como o impacto real da automação ainda é uma incógnita, é difícil avaliar se de fato as iniciativas de políticas públicas serão efetivas no médio e longo prazo. “Os governos têm de realmente colocar como prioritária a discussão da automação, dados os impactos sociais desconhecidos que, no entanto, podem ser profundos”, afirma Kimura.

Nem todo mundo vai ser aproveitado pelo mercado de trabalho, em especial os trabalhadores mais velhos. Neste caso, é preciso haver políticas como a renda mínima, afirma o economista Sergio Firpo, professor titular do Insper especialista em mercado de trabalho. Ele pondera, contudo, que se um projeto de requalificação de trabalhadores for colocado em prática, talvez o impacto do desemprego não seja tão alto. “Parte dessa mão de obra seria realocada em outras atividades”, diz.

Investir na educação de crianças e jovens é outro caminho. Como a tecnologia muda tudo muito rapidamente, os trabalhadores terão de ser eternos aprendizes e adaptar suas habilidades ao longo do tempo para manterem-se no mercado. Assim, sem planejamento educacional de médio e longo prazos, o Brasil ficará ainda mais atrasado na corrida tecnológica, diz Kimura, do Lamfo/UnB, para quem a defasagem entre a formação escolar e a demanda de mercado só tem aumentado. O debate sobre o papel das escolas nesse novo ambiente de automação é fundamental, afirma o pesquisador. Para alguns especialistas, no futuro, as profissões vão aparecer e serem eliminadas em pouco tempo. E se não dá para prever quais serão as profissões importantes daqui a 30 anos, a solução é a qualificação contínua.

Em artigo com o sugestivo título “Robocalypse Now”, David Autor, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e Anna Salomons, Universidade de Utrecht (Holanda), mostram que o aumento da produtividade proporcionada pelos avanços tecnológicos, entre outros fatores, contribuiu para um aumento do emprego na economia em geral, ainda que em alguns setores (a indústria, sobretudo) o emprego tenha caído em 19 países analisados (todos ricos). Mas a mudança favoreceu em sua maior parte trabalhadores mais qualificados. “O principal desafio social apresentado até agora pelo avanço tecnológico sobre o mercado de trabalho não é a queda na demanda agregada por mão de obra, mas sim uma distribuição cada vez mais distorcida dos empregos, e em uma análise, da renda, favorecendo os trabalhadores mais qualificados”, afirmam.

Para o economista Paulo Gala, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), enquanto essa equação educação-mercado não é resolvida, ao menos no Brasil a mão de obra deve ser realocada principalmente em trabalho precário criado pela própria tecnologia, como motoristas e entregadores de aplicativos. Em países mais desenvolvidos, parte dessa mão de obra vai para serviços de alta tecnologia.

“Sempre vai existir serviços de baixa tecnologia, como turismo, que emprega bastante gente. Metade da população vai estar empregada nisso, não tem como fugir. A diferença é onde está a outra metade. Se está em serviços com muita escala, muita produtividade, ou em funções precárias”. Dá para criar emprego na indústria em tempos de inteligência artificial, desde que o tecido industrial seja dinâmico, caso da Alemanha, Japão ou Coreia do Sul. No Brasil, a indústria, em especial a de alta tecnologia, está encolhendo.

Na visão de Paulo Feldmann, da FEA-USP, o Brasil deveria explorar seu grande potencial de biodiversidade para gerar emprego e tecnologia. “O século 21 é o da genética, das ciências da vida. Essa pode ser a nossa vocação. Temos um quarto da biodiversidade do mundo e poderíamos ter uma política industrial voltada para isso”, diz.

Outra frente seria estimular o empreendedorismo. “Precisamos estimular a pequena empresa. É a única forma de absorver os milhões de desempregados que estão aí e os que virão”. Políticas tributárias como o Simples, contudo, vão na contramão do estímulo necessário, diz.

Fonte: Valor Econômico, por Ana Conceição, 29.07.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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