30
maio
2019
Clipping, Notícias,

Mais empresas buscam mentiras nos currículos.

Checagem de informações agora é aplicada em candidatos a cargos de diferentes níveis hierárquicos.

Antes restrito ao alto escalão e empresas multinacionais, a prática do “background check”, a checagem de informações no currículo e de antecedentes de candidatos a vagas de emprego, vem crescendo no Brasil e hoje é usada em uma variedade maior de cargos, níveis e empresas. Com a ajuda da tecnologia, cruza informações de fontes distintas e incorpora varreduras em redes sociais e na internet.

Segundo empresas que oferecem o serviço, casos recentes como o do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e da professora de química Joana D’Arc Félix de Sousa, que incluíram no currículo passagens inexistentes pela Universidade Harvard, não são de todo raros, e são facilmente descobertos. “Os exageros acadêmicos, especialmente, têm sido mais comuns ultimamente”, diz Carlos Lopes, diretor da empresa de investigação e gestão de risco Kroll.

Há casos de profissionais que alegam ter terminado cursos que apenas começaram. Lopes diz lembrar de uma situação em que um candidato a um cargo “superestratégico” entregou um diploma falso quando questionado.

O que mais aparece, no entanto, são “exageros de responsabilidade”, quando a descrição de empregos passados feita pelo profissional não bate com as informações fornecidas pela companhia quando os verificadores entram em contato. “O exagero de responsabilidades é mais comum, mas o exagero acadêmico é uma questão mais facilmente comprovada e mais impactante. Quando a pessoa alega que tem um diploma e não tem, é uma mentira descarada, então a empresa provavelmente não vai considerá-la para a vaga”, diz Lopes.

Especialistas da área afirmam que a demanda vem aumentando na medida em que as áreas de compliance ganham espaço dentro das empresas e cresce a preocupação com o risco que fraudes representam para a reputação da companhia, na esteira da Operação Lava-Jato e da Lei Anticorrupção. Na Kroll, Lopes diz que a demanda pelo serviço de ‘background check’ vem crescendo cerca de 20% ao ano desde 2013.

Antes exigência mais comum em multinacionais, que traziam a prática da matriz, ele conta que hoje tem mais clientes locais e que as organizações buscam o serviço para cargos mais variados, e não penas posições executivas. “Temos feito relatórios para diretores, gerentes e até analistas se eles forem de áreas mais sensíveis como os departamentos de compras e de relações institucionais, onde uma relação com fornecedor ou político pode ser um risco”, diz.

Além de entrar em contato com instituições acadêmicas e empresas para verificar as informações do currículo, as varreduras consideram registros públicos sobre a pessoa, participação em litígios ou processos criminais, ações administrativas em órgãos profissionais, o que foi dito sobre a pessoa na mídia, e as publicações do candidato em redes sociais, em especial posts racistas ou homofóbicos. “Nosso foco é identificar riscos, e não a opinião da pessoa”, diz. Muito buscadas pelos clientes, em especial companhias que lidam com o setor público, são conexões políticas ou conflitos de interesse com concorrentes ou fornecedores.

Claudia de Jesus, sócia da Background Brasil, atua com a checagem de antecedentes desde 2001, quando atuava no jurídico de uma multinacional. Ela conta que, quando começou no Brasil, o ‘background check’ ‘se ocupava mais em investigar ocorrências na Justiça. “Com o passar do tempo percebi que a preocupação passou a ser de currículo mesmo, com a verificação educacional e de antigos empregadores”, diz. A partir de 2015, ela viu um aumento significativo na demanda pelo serviço.

No seu trabalho, feito em grande parte por meio de contato telefônico com instituições de ensino e empresas, ela checa o passado de candidatos de todos os níveis, até estagiários. Se antes a checagem era apenas das informações fornecidas pelo candidato durante o processo seletivo, hoje ela verifica também o que consta na Plataforma Lattes e no LinkedIn. “Ali a criatividade rola solta”, diz. Quando há inconsistências, avisa a empresa.

Os especialistas dizem que não há obrigação de a companhia avisar o candidato que ele passará por uma verificação desse tipo, mas tanto Lopes quanto Claudia dizem preferir quando isso acontece. “A transparência ajuda os desavisados”, diz Claudia. Para Lopes, o ato de avisar já leva a mais abertura por parte dos candidatos no caso de processos judiciais, por exemplo.

A tecnologia tem permitido que esse trabalho seja mais rápido e sutil, no entanto. A empresa de mineração de dados upLexis usa mais de 500 fontes de informação para criar sistemas onde as empresas fazem consultas de risco em processos de compras, contratação de fornecedores e recrutamento. Segundo Eduardo Tardelli, CEO da upLexis, os serviços vêm sendo mais demandados desde que a Lei Anticorrupção ampliou a responsabilização de empresas quando fornecedores se envolvem em irregularidades.

No caso dos funcionários, as informações consultadas automaticamente pelo sistema incluem processos nas Justiça, redes sociais, participação em empresas e quem são seus sócios, e comportamento de crédito com base em informações fornecidas por empresas como a Serasa. “A gente vai atrás do que está digitalizado e do que é público ou acessível. Temos um aplicativo que gera um dossiê com indicadores sobre a pessoa”, afirma Tardelli.

Por ser um serviço rápido e digital, ele diz que é muito comum ser usado por empresas de terceirização, como de segurança e limpeza, bem como aplicativos de serviços. “Nesse universo digital a cada instante as pessoas estão deixando mais rastros e mais informações disponíveis, e isso pode ser usado a favor ou contra você”, diz.

Fonte: Valor Econômico, por Letícia Arcoverde, 30.05.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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