07
fevereiro
2019
Clipping, Notícias,

Mulheres criam grupos para ter voz em suas áreas.

Novas associações femininas buscam maior representatividade em seus setores.

As mulheres ocupam 38% dos cargos gerenciais no Brasil, segundo dados do IBGE. Na presidência das companhias o número cai para 18%, de acordo com a pesquisa Panorama Mulher 2018, realizada pelo Insper e a consultoria de recrutamento Talenses. Globalmente, alcançar a equidade de gênero nas empresas levará 202 anos, conforme o relatório Global Gender Gap 2018, organizado pelo Fórum Econômico Mundial.

Quem sente na pele os desafios de ser mulher no ambiente corporativo vem se mobilizando para ganhar voz e, quem sabe, conseguir que mudanças aconteçam mais rapidamente. Segmentados por setor de atuação, grupos de mulheres vêm surgindo no país inteiro. Cada um tem sua própria pauta e seus próprios objetivos. Em comum, a união pelo gênero.

Criado em novembro de 2018, o grupo Mulheres do Varejo já reúne 1,2 mil integrantes. A ideia para criar a comunidade surgiu após um grande evento do setor. “Percebi ali que a maior parte das pessoas que estavam discutindo o futuro do varejo eram homens”, afirma Fátima Merlin, uma das fundadoras do grupo e CEO da Connect Shopper. “O varejo ainda é um setor bastante resistente à participação feminina na liderança”, critica.

Com quatro pilares definidos — informação, formação, conexão e visibilidade —, o grupo troca informações por WhatsApp e redes sociais e organizou seu primeiro evento presencial em dezembro. Com cerca de cem pessoas, o encontro apresentou os resultados de uma pesquisa que ouviu 87 profissionais do varejo do sexo feminino. Mais de 60% afirmaram não estar satisfeitas com a relação entre homens e mulheres no setor. “Nosso objetivo não é ser elas contra eles, mas queremos gerar desconforto nas empresas e nas pessoas para instigar a reflexão”, diz Fátima.

Executivas do setor de seguros também se reuniram para tentar dar mais visibilidade às mulheres que atuam no segmento. “Percebemos que as minorias, incluindo as mulheres, têm dificuldade de ascensão nas empresas do setor de seguros e começamos um grupo para discutir o tema”, afirma Vera Carvalho Pinto, uma das criadoras do Instituto pela Diversidade e Inclusão no Setor de Seguros (Idis). Para ela, do ponto de vista do negócio, manter a diversidade nas equipes é extremamente importante para as companhias do setor. “Se a empresa não tem a sociedade refletida dentro da organização, como vai desenvolver produtos para essa sociedade?”, questiona.

Uma pesquisa da Escola Nacional de Seguros mostrou que 56% dos profissionais da área são mulheres, mas no alto da hierarquia corporativa os números caem: 39% na gerência e 28% em cargos executivos. “Queremos trazer luz ao assunto para auxiliar as empresas”, diz Vera.

No agronegócio, as mulheres também estão se unindo. Moradora da cidade de Mineiros, em Goiás, Cristiane Steinmetz é uma das criadoras de um grupo de WhatsApp que já reúne cerca de 200 mulheres. Há cinco anos, após a morte repentina do pai, Cristiane teve que assumir as fazendas de grãos da família junto com a irmã e a mãe. Nos dez anos anteriores ela já acompanhava o pai nos negócios, mas se viu obrigada a ter uma participação mais direta. “Senti muita insegurança, é um ambiente extremamente masculino, e os funcionários duvidavam se nós conseguiríamos dar conta”, diz.

A ideia de criar o grupo de mulheres do agronegócio veio de uma observação dela dos tempos em que acompanhava o pai nas negociações. “Ele visitava as empresas e sempre havia um grupo de homens reunidos trocando experiência, falando do mercado. Eu pensei: ou eu me integro e faço isso com os homens ou começo a fazer o mesmo com outras mulheres do setor.”

Foi assim que, em meados do ano passado, ela decidiu criar um grupo de WhatsApp para reunir as fazendeiras de sua região. A troca de informações saiu do ambiente virtual e hoje há encontros presenciais em Mineiros. Batizadas de “Food and Talks”, as reuniões servem para compartilhar experiências e tendências do mercado, fomentar o networking e, por que não, se divertir.

Em outubro do ano passado, algumas participantes do grupo vieram até São Paulo para participar do Congresso das Mulheres do Agronegócio. Idealizado pela Transamérica Expo Center em 2016, o evento foi desenhado inicialmente para receber 300 pessoas, mas reuniu o dobro disso logo na primeira edição. Em 2018, quando Cristiane e as amigas participaram do congresso, havia 1.500 participantes. Para a edição de 2019, que acontecerá em outubro, a expectativa é reunir 1.800 pessoas.

Alexandre Marcilio, diretor geral do Transamérica Expo Center, diz que o congresso foi criado para dar voz às mulheres em um mercado ainda muito machista. “Há ótimas referências femininas no setor que estavam escondidas”, afirma. “O congresso é um ambiente onde elas podem debater as dores que enfrentam no dia a dia da profissão, seja em relação às dificuldades do campo, seja pelo histórico de governo ou ações comerciais erradas. Não é, necessariamente, para falar de temas ligado a mulheres.” Na pauta do evento de 2019, por exemplo, está a pesquisa agropecuária, o futuro do alimento e a mecanização agrícola, além de um debate previsto sobre o papel da mulher no sucesso do agronegócio brasileiro.

Em outro setor predominantemente masculino, a engenheira Ariana Adratt criou em 2018 o podcast “Mulheres da Engenharia”. Com programas semanais, Ariana traz entrevistas com engenheiras de destaque em diferentes áreas de atuação. A ideia dela é mostrar às mulheres que há referências femininas bem-sucedidas na engenharia. “Como mulher em uma área técnica inserida em um ambiente extremamente masculinizado, eu me sentia sozinha e comecei a duvidar da possibilidade de crescer profissionalmente, porque para todos os lugares que eu olhava só via engenheiros homens em posições onde eu gostaria de estar”, conta. “Pensei que era impossível que nenhuma engenheira tivesse tido sucesso profissionalmente, eu só precisava achá-las.”

Segundo Ariana, as mulheres representam cerca de 30% dos graduados em engenharia, mas em algumas áreas como engenharia mecânica, metalúrgica, de petróleo ou nuclear esse número cai para cerca de 15%. Nesse cenário, Ariana afirma que as engenheiras sofrem com o preconceito e acabam tendo que lidar com piadas machistas e até assédio. Um relatório publicado em 2018 pela Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos mostra que metade das mulheres nessas três áreas já sofreram algum tipo de assédio. “No Brasil a situação não é diferente”, diz. Cada episódio do Mulheres da Engenharia soma, em média, 500 reproduções e o Instagram do podcast reúne mais de 6 mil seguidores.

Em fevereiro é a vez das químicas se reunirem no Instituto de Química de São Carlos, ligado à Universidade de São Paulo. A iniciativa foi da instituição União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac), que decidiu, na comemoração de seus cem anos, celebrar as mulheres que trabalham na área química. “A sociedade ainda é machista, e como consequência o setor de química também é”, afirma Maria Olimpia de Oliveira Rezende, professora do Instituto. “O objetivo dessa reunião é o empoderamento feminino.” No Instituto, há 54 professores no total, sendo 39 homens. Entre eles, 31% são titulares (grau máximo da carreira). Entre as mulheres, apenas uma delas tem esse título. “Ainda hoje, a casa e a família são responsabilidade da mulher e isso impacta na carreira, porque tira energia.”

Pioneiro na reunião de mulheres por segmento, o Ibef Mulher completa dez anos em 2019. O “braço feminino” do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças nasceu com a intenção de aumentar a presença de mulheres na instituição. “Era preciso ter um olhar diferenciado, uma iniciativa que estimulasse as executivas a participarem mais”, conta Luciana Medeiros, diretora do Ibef Mulher e sócia na PwC.

A iniciativa conseguiu, de fato, ampliar a presença feminina no Ibef. Se no começo, há dez anos, eram 60 integrantes mulheres, hoje são 250. Elas, no entanto, ainda são minoria, já que o instituto reúne cerca de mil associados.

Luciana explica que, além de aumentar a quantidade de mulheres no instituto, o objetivo sempre foi integrar as executivas— “muitas vezes chegamos em eventos onde a grande maioria são homens” — e dar voz a elas, colocando as profissionais mulheres nos palcos para falar tecnicamente sobre finanças. “Por mais que hoje em dia já existam mais mulheres expoentes no setor, o estereótipo do executivo de finanças ainda é o homem branco. Temos que quebrar esse estereótipo. Há homens e mulheres de diversas raças e idades que são executivos muito competentes”, conclui.

Fonte: Valor Econômico, por Adriana Fonseca, 07.02.2019

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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