07
novembro
2018
Clipping, Notícias,

Funcionários colocam discurso das empresas do Vale do Silício à prova.

Quando milhares de funcionários do Google saíram em protesto contra o tratamento leniente da companhia a superiores acusados de assédio sexual, a iniciativa foi publicamente reforçada pelos organizadores da paralisação nas redes sociais. A manifestação convocada por eles na quinta-feira passada com o uso da hashtag #GoogleWalkout, dizia que “precisamos de transparência, responsabilização e mudanças estruturais”.

O protesto mundial no Google é o exemplo mais recente das divergências ocorrendo dentro das empresas de tecnologia. Diferentemente dos informantes que denunciam irregularidades e das campanhas de grupos externos que fazem pressão, mais comuns nas últimas décadas, esta forma de protesto é organizada pelos próprios funcionários. São profissionais que se sentem encorajados por saberem que suas habilidades estão escassas no mercado e que estão acostumados a debater livremente na internet — sendo, inclusive, estimulados a fazer isso nas redes internas para funcionários.

Em uma conferência em Nova York, o executivo-chefe do Google, Sundar Pichai, demonstrou apoio à greve: “Há raiva e frustração dentro da companhia. Estabelecemos um padrão de comportamento muito alto e claramente não correspondemos às expectativas”.

A greve dos funcionários do Google ocorreu duas semanas depois que um artigo contundente sobre outra companhia de tecnologia se espalhou rapidamente pela internet. No texto, intitulado “Sou funcionário da Amazon. Minha empresa não deveria vender tecnologia de reconhecimento facial para a polícia”, o autor anônimo argumenta que o software “Rekognition” da Amazon “não deveria ser usado como ferramenta de vigilância em massa”.

O autor juntou-se a uma onda de trabalhadores do setor de tecnologia que nos últimos meses estão transformando em questão pública as políticas dessas empresas em relação aos seus funcionários.  O artigo, escrito para o site Medium, acrescenta: “Seguimos os passos dos Googlers [como são conhecidos os funcionários do Google], que se manifestaram contra o contrato ‘Maven’ [que fornece tecnologia de reconhecimento de imagens para o Pentágono] e os funcionários da Microsoft, que estão protestando contra o contrato ‘JEDI’ [uma concorrência para o projeto na nuvem do Departamento de Defesa dos Estados Unidos para modernizar sua estrutura de tecnologia da informação]”.

Yvonne Hutchinson, fundadora da ReadySet, uma consultoria especializada em diversidade com sede na Califórnia, diz que esse movimento deverá crescer. “Está mais difícil para as companhias de tecnologia não assumirem posturas éticas. Elas estão tendo um papel cada vez mais significativo na vida das pessoas”, diz.

Sobre a manifestação no Google e a resposta de Pichai, ela diz: “Ações são mais eloquentes que palavras. Saberemos até onde esse apoio irá quando soubermos se o Google fará ou não as mudanças sistêmicas sugeridas pelos organizadores”.

Os trabalhadores reconhecem que estão em uma posição de poder por causa da corrida por talentos nas empresas de tecnologia: “Os funcionários podem, individual ou coletivamente, usar o recurso mais valioso que eles têm – eles próprios – e sair pela porta. Eles também podem convocar suas redes de contatos para tornar as contratações mais difíceis para as organizações”.

Os funcionários têm sido lentos na compreensão do poder que têm nessas divergências, afirma um porta-voz da Tech Workers Coalition, um grupo de pressão que reúne os trabalhadores administrativos e de serviços das empresas de tecnologia. Mas ele diz que o impulso está ganhando força: “Estamos nos organizando para aumentar o poder do trabalhador através da auto-organização de bases e da educação”.

Bretton Putter, autor do livro “Culture Decks Decoded”, diz que as divergências públicas são uma consequência natural de as empresas de tecnologia ostentarem seus valores e princípios na internet. O exemplo mais memorável é o lema do Google, “Don’t be evil” (“Não seja mau”). Depois de uma reestruturação em 2015, sob o Alphabet Group, a companhia controladora adotou um lema diferente, “Do the right thing” (“Faça a coisa certa”), embora o Google tenha mantido o original.

Depois que a Netflix colocou na internet o “Culture Deck”, a apresentação de integração de seus funcionários, em 2009, que inclui sua política de folgas ilimitadas e a intolerância por qualquer coisa que não o alto desempenho, outras empresas fizeram o mesmo, entre elas a publicação do “Culture Mode” da Asana.

Putter diz que as empresas de tecnologia transformaram suas culturas em um “ativo”, o que é particularmente útil no recrutamento. “Para a empresa e os funcionários, trata-se de um contrato implícito. Eles aderem ao ‘é assim que trabalhamos, é isso o que defendemos’. Se a companhia quebra a confiança e não corresponde aos seus valores, a coisa se torna pessoal.”

Patty McCord, ex-diretora de talentos da Netflix, concorda. “Se as empresas não ouvirem seus funcionários, devem considerar que eles vão levar isso para fora da companhia. Susan Fowler levou suas queixas de assédio sexual e discriminação para a internet porque ninguém deu atenção a ela internamente. Ela chamou atenção para uma cultura no Uber que era muito tóxica.”

O Google respondeu aos funcionários divergentes publicando os princípios que vai seguir nos contratos de inteligência artificial, incluindo o não uso de “armas ou outras tecnologias cujo principal propósito é causar ferimentos às pessoas ou facilitar isso diretamente”.

Enquanto isso, a Microsoft publicou uma postagem de blog insistindo que “a saída desse mercado reduziria nossa oportunidade de nos envolver no debate público”. A Amazon não respondeu aos pedidos do “Financial Times” para comentar o artigo publicado no Medium.

Os trabalhadores do setor tecnológico são apenas o começo, afirma Patty. Ela está certa de que os funcionários de diferentes setores seguirão o exemplo. “Os empregadores devem considerar que as pessoas estão falando com os amigos nas redes sociais sobre coisas relacionadas ao trabalho. Os profissionais que cresceram com a internet não têm os mesmos constrangimentos das pessoas que não cresceram com ela.”

Um exemplo recente é Carrie Gracie, uma ex-editora de China da BBC, cuja carta aberta de demissão desencadeou uma grande campanha por igualdade de gênero entre o “staff” feminino da rede de TV.

Patty diz que os funcionários acham que não estão fazendo nada de errado. “Não se trata de um levante de uma multidão furiosa. Eles estão discordando. As empresas precisam prestar atenção”, diz.

Leslie Gaines-Ross, estrategista-chefe de reputação da empresa de relações públicas Weber Shandwick, diz que o ativismo poderá prejudicar a reputação de uma empresa, uma vez que “as pessoas acreditam muito mais nos funcionários do que nos outros”. As empresas devem se certificar de oferecer canais para os funcionários emitirem suas opiniões, diz ela, sugerindo a nomeação de um “ombudsman” cuja única função será ouvir o que eles têm a dizer.

Depois que os funcionários da Salesforce fizeram uma petição para o fim do contrato da companhia com a agência aduaneira e de proteção das fronteiras dos EUA, Marc Benioff, seu executivo-chefe adjunto, anunciou uma nova função de supervisão do uso ético e humano da tecnologia para o trabalho com “clientes, funcionários e parceiros para encorajar, promover, publicar e implementar padrões para o setor”. O Google sugere seus canais internos para os funcionários exprimirem suas preocupações para os líderes.

Ainda assim, as conversas nesses canais podem ser problemáticas. O Google divulgou em junho novas diretrizes para amenizar as discussões, em que alerta os funcionários a evitar declarações generalizadas sobre grupos ou categorias de pessoas. Elas pedem também para que eles meçam suas palavras. James Damore, um engenheiro do Google, foi demitido no ano passado após escrever uma nota afirmando que as mulheres são menos adequadas que os homens para cargos de engenharia.

Yvonne Hutchinson diz que é um erro associar a raiva com as políticas de diversidade com o ativismo político. “As companhias decidem o tempo todo se contratam ou demitem pessoas com base na maneira como elas se encaixam em sua cultura. É algo sobre o qual você pode contratar ou demitir. Ninguém é obrigado a trabalhar para uma empresa.”

Tal divisão pode ser evitada. “Conceber a diversidade como uma forma de incluir para todos, compartilhando benefícios, pode evitar uma reação negativa”, diz. No entanto, acrescenta ela, “há pessoas que se sentirão ameaçadas”.

Fonte: Valor Econômico / Financial Times, por Emma Jacobs, 07.11.2018

Os artigos reproduzidos neste clipping de notícias são, tanto no conteúdo quanto na forma, de inteira responsabilidade de seus autores. Não traduzem, por isso mesmo, a opinião legal de Granadeiro Guimarães Advogados.

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