| O mercado de trabalho passa por uma nova fase
de tensão com a finalização dos acordos de redução
de jornada, licença remunerada e suspensão temporária dos
contratos de trabalho. Setores da indústria voltados à exportação
que ainda mantêm os funcionários com jornada reduzida apresentaram
aumento no custo do trabalho - fator que pode levar as empresas a fazer novos
ajustes no quadro de pessoal. O fim dos acordos de jornada reduzida, que garantiam
estabilidade aos trabalhadores, preocupa sindicatos.
A produtividade na indústria, que representa a relação
entre a produção e o número de horas pagas, cresceu 1,2%
em 2008. Nos 12 meses até janeiro, inverteu o sinal e caiu 0,4% e, nos
12 meses até fevereiro, a retração foi de 1,6%.
O custo unitário do trabalho, que mede a relação entre
a produtividade e os gastos com a folha individual de pagamento já descontada
a inflação, também apresentou piora. A alta neste custo,
que nos 12 meses do ano passado ficou em 2,8%, passou para 4,4% no acumulado
até janeiro e para 6,1% até fevereiro - esse último resultado
inclui o impacto do reajuste do salário mínimo e o pagamento de
horas extras em alguns setores.
Setorialmente, o custo do do trabalho apresenta comportamentos distintos. Setores
industriais que efetuaram volumes significativos de dispensas nos últimos
meses apresentaram redução neste indicador no dado acumulado até
fevereiro (12 meses), o que significa que os ajustes feitos na folha de pagamento
(com corte de pessoal ou redução de salários) foram suficientes
para equilibrar os gastos.
Este foi o caso das indústrias de fumo (queda de 1%), vestuário
(-0,4%) e papel e gráfica (-4%). Outros setores apresentaram expansão
no custo do trabalho e são apontados como setores que possivelmente terão
de fazer novos ajustes em seu quadro de pessoal, como produtos químicos
(10,4%), coque e refino (18,1%), metalurgia básica (13,9%), produtos
de metal fora máquinas e equipamentos (13,9%), máquinas e equipamentos
(8%), aparelhos elétricos e eletrônicos (10%).
Enquanto as montadoras e seus fornecedores diretos encerraram antes ou não
renovaram acordos de redução de jornada (voltando à produção
normal), nos sindicatos preocupa o fim dos acordos em empresas cuja produção
é destinada à exportação ou a setores que ainda
não dão sinais de recuperação no mercado interno.
Representantes dos trabalhadores buscam alternativas para evitar uma nova onda
de demissões. Em Jundiaí, o Sindicato dos Metalúrgicos
local renovou para o período de maio a julho os acordos de redução
de jornada e salários fechados com as empresas de autopeças Sifco
e ThyssenKrupp em janeiro e que venciam neste mês. Empresas que fornecem
para montadoras de automóveis (Neumayer Tekfor, Eckerle e AOC) encerraram
o acordo de redução de jornada um mês antes da data prevista.
De acordo com o vice-presidente do sindicato, Luís Carlos de Oliveira,
há preocupação com as autopeças que produzem para
exportadores e para o mercado de caminhões, ônibus e máquinas
agrícolas, que ainda não se recuperaram da crise. "Há
uma expectativa de que os US$ 5 bilhões repassados pelo governo americano
à GM estimulem o mercado americano e, com isso, as empresas voltem a
exportar para lá", observa.
Na Zona Franca de Manaus, os setores de eletroeletrônicos e duas rodas
mantêm até maio os acordos de suspensão temporária
dos contratos de trabalho negociados entre dezembro e janeiro. Mantêm
empregados com contratos suspensos as empresas Philips, Proview, Motopraxx,
Sundown, Eucopeq, Envision, Dafra e Yamaha, envolvendo 3 mil trabalhadores.
Das empresas que fizeram acordos de redução de jornada na Zona
Franca, apenas a Salcomp voltou ao ritmo normal de trabalho - no seu caso, com
45 dias de antecedência.
De acordo com o secretário de comunicação do Sindicato
dos Metalúrgicos de Manaus, Sidney Malaquias, as indústrias de
duas rodas já operam com quase 85% da capacidade utilizada normalmente,
mas o segmento de eletroeletrônicos ainda não deu sinais de retomada.
"A produção melhorou, mas é uma recuperação
muito tímida", diz. Conforme Malaquias, a decisão do governo
de prorrogar por mais 90 dias a redução da Cofins e do ICMS sobre
energia elétrica para os setores de duas rodas, termoplásticos
e papel e papelão em troca da estabilidade dos funcionários contribuiu
para reduzir custos das indústrias e incentivá-las a manter o
número de empregados.
"O setor de eletroeletrônicos não quis fazer o acordo com
o governo, o que para o sindicato é motivo de preocupação
para o meio do ano, quando a suspensão temporária dos contratos
de trabalho termina", diz Malaquias.
Na avaliação do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
de São José dos Campos e Região, Adilson dos Santos, a
recente melhora no nível do emprego e das vendas é reflexo apenas
das vantagens tributárias concedidas pelo governo federal.
"Não são indicadores de que a crise está acabando
e que o mercado consumidor vai bem, tanto que o governo prorrogou a redução
do IPI para automóveis", observa. Na região, diz, o volume
de demissões diminuiu, mas o ciclo de ajustes ainda não terminou.
A economista do Santander Luiza Rodrigues acrescenta outro fator de risco.
À medida que os 753,5 mil trabalhadores demitidos nos últimos
cinco meses deixarem de receber o seguro-desemprego, as vendas no comércio
tendem a uma desaceleração mais forte, configurando um risco de
demissões ou de fim das contratações no varejo. "Grande
parte do ajuste foi feito na área industrial. Comércio e serviços
começam agora a enfrentar uma desaceleração mais forte
e devem fazer um ajuste mais significativo que as indústrias. O primeiro
semestre não tende a ser bom para o mercado de trabalho", afirma.
Luiza estima, porém, recuperação no segundo semestre,
podendo o mercado formal encerrar com geração líquida de
500 mil a 800 mil postos de trabalho - longe dos 1,452 milhão gerados
em 2008 e ainda abaixo do acumulado em 12 meses até março (840
mil). A taxa média de desemprego para o ano está estimada em 9,3%,
ante 7,9% em 2008.
A LCA Consultores prevê uma taxa média um pouco menor, de 8,7%.
Para o economista Fábio Romão, o principal ajuste no mercado de
trabalho já foi feito entre novembro e fevereiro.
"Pode haver alguma deterioração, mas longe de alcançar
a intensidade observada no fim do ano", diz. Romão prevê para
o ano uma geração líquida de 800 mil postos de trabalho
com carteira assinada. A equipe econômica do Bradesco aposta em um saldo
menor de empregos formais no fim do ano, próximo de 300 mil vagas, caso
a recuperação do mercado formal mantenha-se no mesmo ritmo observado
em março.
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